Memorial do Consumo

A boneca Barbie e suas fantasias

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Confesso. Um dia tive uma boneca Barbie. O inusitado é que era morena. Como eu, ao menos nos cabelos, uma vez que tinha a alva pele das imaginárias norte-americanas. Reuníamos as amigas todas aos finais de semana e logo se armava a competição de Barbies. A minha sempre vencia, pois havia recebido de minha loura mãe uma belíssima e insuperável fantasia de espanhola. Vermelha e negra, bastante sensual, repleta de babados reluzentes. Naquela época, era fácil ganhar. Também era fácil perder. Mal uma das meninas de minha turma se via na condição de perdedora, toda a legião infantil a revestia de cuidados. Quase sempre a presenteávamos com um delicioso tabletinho de Dizioli. Ou com uma porção de bala Chita. Ou com um vidrinho do saudoso perfume Emeraud, da Coty, bem verdinho e reluzente.

Minha turma de amigas de infância dividia-se basicamente entre algumas atividades: brincar de roda, brincar de pega, organizar aniversários de nossos cãezinhos, fazer desfiles de bonecas e, glória das glórias, encenar alguma peça teatral. Para que a peça teatral se viabilizasse nós, aprendizes de comerciantes, nos emprenhávamos a montar na rua algumas barraquinhas, nas quais vendíamos de tudo um pouco: limonada, doces, bolos, alguns brinquedinhos velhos mas ainda em bom estado, roupinhas de criança, pequenos poemas bordados.

O sucesso era grande. Não sei por que motivo, mas a vizinhança, naqueles idos anos 70, levava muito a sério as iniciativas infantis. Pagavam-nos com alegria, participando efusivamente daquele mercado de mercadorias e afetos. Depois, toda a família reunia-se para a encenação. “Pluft, o fantasminha” era nosso campeão de audiência. Mas outras vezes recusávamos roteiros e escrevíamos nós mesmas as nossas peças. O coletivo então se unia, e cada uma de nós, agregadas em assembléia, redigia nossa história. A mais memorável delas deu-se nos jardins da casa das irmãs Adelaide e Beatriz, uma verdadeira representação em cena aberta, pois a peça se deu literalmente com a interação do público de transeuntes. Nossos pais nos assistiam, sorridentes… E foram tantas as vezes que, para nosso desespero, reagiam no meio de uma cena muito dramática, reconhecendo em nosso cenário algum objeto “emprestado” de suas casas.

Felizes, caminhávamos depois, muito meninas e mui levemente, rumo ao mercadinho da esquina, para então comprar nossa recompensa identitária: caramelos, balas-puxa, refrigerantes. Também inesquecível foi o momento em que nossas panelinhas e nossos pequenos fogareiros, nos quais cozinhávamos comidinhas comíveis e absolutamente in-comíveis, foram confrontados pelo surgimento do iogurte, que era servido ao irmãozinho temporão de duas de nossas amigas, Mirian e Lígia. Nossa vida de meninas era recheada de fantasias, de objetos, de memórias e de hábitos de consumo que, fundamentalmente, eram carregados de poesia e esperança. Nosso cotidiano era demarcado por balas, doces, bonecas e posteriormente pela música. Já caminhando para a adolescência desistimos das peças e das barraquinhas. Agora, nossas tardes seguiam embaladas por música. Chico Buarque soava a todos os pulmões na vitrolinha laranja de minha irmã mais velha.

A vitrolinha não deve existir mais. A bala chita e as Barbies ainda resistem. Eu hoje, novamente, tenho um cachorro. E tenho esta minha memória, repleta de beleza, de sonhos, e de objetos de consumo. A Barbie espanhola, afinal, é para mim, certa memória de feminilidade e de beleza. Os dizioles, as balas chitas, os discos… Todos compõem esta peça que escolhi escrever. Chamada eu mesma. Ainda gosto de balas chita. E do Chico. Ainda converso com os donos das vendinhas. E também com a caixa do Pão-de-Açucar. Que hoje me vende os novos produtos que participam da produção de alegria, e de potência de agir, em minha existência. Ela, sem saber, conversa com minha infância. Onde aprendi que é possível ser feliz, consumir, vender e encenar histórias. Minhas amigas de infância participam hoje, sem saber, de meus estudos sobre juventude e consumo. São elas, em minha memória, que trazem o exercício anamnésico da esperança. Afinal, foram elas a me ensinar um modo de comunicar que é íntegro, lúdico e afinado com uma sociedade do consumo que incorpora e valoriza os afetos. È por isso que diferencio, maduramente, consumo de consumismo e consumação. Vejamos, antes, a dimensão ética e essencialmente humana que é mediada pelos atos de consumir. Meu cachorrinho late logo ali. E eu, logo aqui, acredito.

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