Memorial do Consumo

Ética e telenovela: os valores morais evangélicos e o consumo de telenovelas da Rede Globo

 

Por Luiz Peres-NetoÉtica e Telenovela

Introdução

A dificuldade que se apresenta ao propor um estudo sobre ética na comunicação é grande, ainda mais quando tomamos por objeto o universo da telenovela. Em primeiro lugar, a literatura hegemônica no campo da comunicação sobre ética tende a privilegiar a discussão sobre o agir dos profissionais de comunicação.

Frequentemente nos deparamos com uma ampla produção sobre questões atinentes ao campo jornalístico e, em menor escala, à publicidade e às chama- das novas mídias. Como exemplo, podemos citar o dossiê sobre “Ética na comunicação”, publicado em 2014, pela revista “Comunicação e Sociedade” (Universidade do Minho) que propõe repensar e discutir temas emergentes nessa área. A totalidade dos artigos publicados pelo mencionado periódico invisibilizam temas que não sejam próprios às reflexões sobre ética no jornalismo, publicidade e novas mídias ou questões contíguas a estas temáticas. Por sua vez, em segundo lugar, outro desafio que se apresenta é que nos deparamos ante uma sólida e ampla produção acadêmica sobre telenovela no âmbito ibero-americano. Os trabalhos do Obitel, por exemplo, articulam uma potente rede transnacional de pesquisa (GOMEZ, LOPES, 2010). Nos últimos 25 anos, diversos grupos de pesquisa consagraram inúmeros esforços à pesquisa sobre telenovelas, a que poderíamos acrescentar a massa crítica gestada no GP de Ficção Seriada da Intercom, além de outros exemplos. A diversidade temática da pesquisa em telenovela também é algo patente (COUTO, 2013). É inegável a importância e contribuição da pesquisa em telenovela para o campo da comunicação, em geral, e os estudos de recepção, em particular.

Igualmente cabe destacar a crescente produção científica na interface entre comunicação e religiosidade (MARTINO, 2012a). Com efeito, a pesquisa sobre a presença da religião na mídia (GOMES, 2010), as mediações e a midiatização do religioso (MARTI- NO, 2012b), as apropriações das ambiências digitais pelas instituições religiosas (MIKLOS, 2012), o tran- sito entre o sagrado e o midiático (MELO, GOBBI e ENZO, 2007), entre outros exemplos que poderiam ser elencados sem óbice de generalizações dão conta da crescente atenção depositada por pesquisadores da comunicação ao fenômeno religioso. Especificamente no tocante à pesquisa em telenovela, cabe destacar estudos como o de Nascimento (2012), que abordam a presença da temática religiosa ou espiritualista nas narrativas dos melodramas da Rede Globo.

Sendo assim, partindo deste cenário, este artigo propõe estudar as relações entre ética e o consumo de telenovelas da Rede Globo por evangélicos. Especificamente, buscamos compreender os discursos morais de Pastores pentecostais e neopentecostais sobre as telenovelas da Rede Globo e sua influência no consumo das mesmas por fiéis praticantes desse segmento evangélico. Partimos da hipótese de que o discurso dos Pastores sobre a doutrina moral que fundamenta evangélicos pentecostais e neopentecostais não permite o consumo de telenovelas, em especial, as da Rede Globo, uma vez que estas apresenta- riam temáticas que são supostamente conflitivas com os valores morais exortados por tais doutrinas religiosas. Desse modo, como pergunta de investigação, problematizamos os possíveis conflitos morais entre o conteúdo presente nos melodramas da Rede Globo e a ética evangélica. Conflitos morais que, em suma, impediriam o consumo de tais telenovelas por fiéis evangélicos.

O debate acadêmico de tal objeto de estudo, contudo, nos sugere um posicionamento no tocante ao nosso entendimento sobre ética e moral. Para tanto, devemos esclarecer que, apesar de existirem cor- rentes de pensamento que tratam a moral e a ética como sendo sinônimos, ou seja, não fazem conceituações distintas entre elas, tais como Roger Silverstone (2007) e Paul Ricoeur (2011), por exemplo, no transcorrer deste trabalho compartilharemos de uma visão diferente, separando os conceitos de moral e ética, tal como Sponville (2002), Barros Filho (2003) e Chauí (2012), entre outros autores. Basicamente, trataremos a moral como atribuição individual de valores às ações humanas e, por sua vez, o moralismo como a imposição de um sentido ou valor moral individual a uma ação impetrada por outrem. Diferentemente da ética, que a efeitos deste trabalho deve ser considerada como o conjunto de valores compartilhados por um determinado grupo para uma vida boa e virtuosa, a moral está sempre relacionada à individualidade. Sponville (2002) nos esclarece que a moral só se legitima na primeira pessoa e, para tal, requer o livre-arbítrio. Sem a liberdade como fundamento da ação moral, como aponta Valls (2008), não há espaço para a ética.

 


Este artigo foi publicado originalmente na Revista Parágrafo v. 4, n. 1 (2016).

Acesso o artigo completo: PDF.

 

 

SOBRE O AUTOR

Maria Beatriz Portelinha é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas do Consumo da ESPM-SP.