Memorial do Consumo

Harry Potter: Conexões Midiáticas, Produção e Circulação, Cenários Urbanos e Juvenis

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Getty Images

Por Silvia Borelli

 

Introdução

A série Harry Potter chegou ao Brasil em 2000, três anos depois que os primeiros livros – Harry Potter and philosopher’s stone, Harry Potter and the chamber of secrets e Harry Potter and the prisioner of Azkaban – foram lançados na Inglaterra (Bloomsbury Publishing Plc) e nos Estados Unidos (Scholastic Press), tiveram sua tradução para variadas línguas, além da inglesa, e conquistaram um espaço considerável no mercado editorial internacional.

Para recuperar o “tempo perdido” a editora Rocco, detentora dos direitos autorais no Brasil, publicou os mesmos três volumes – Harry Potter e a pedra filosofal, Harry Potter e a câmara secreta e Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban –, em uma maratona editorial, nos meses de março, agosto e novembro de 2000, respectivamente.

Desde então, a trajetória da série no Brasil acompanhou o ritmo acelerado dos novos lançamentos no mercado internacional e alcançou patamares bem-sucedidos no ranking dos “mais vendidos”; como em todo o mundo, transformou-se, rapidamente, em best- seller (BORELLI, 1996; REIMÃO, 1991a; 1991b).

O quarto livro, Harry Potter e o cálice de fogo, editado em língua inglesa em 2000 (Harry Potter and the globet of fire), ganhou o mercado brasileiro no primeiro semestre de 2001, pouco tempo depois da versão original em inglês. O quinto volume da série, Harry Potter and the Order of the Phoenix, foi lançado concomitantemente na Inglaterra, Estados Unidos, Canadá e Austrália, em junho de 2003, além de em outros países de línguas não inglesas, e no Brasil, em dezembro do mesmo ano, com o título Harry Potter e a Ordem da Fênix. O sexto volume, Harry Potter and the half-blood prince, ficou disponível em língua inglesa a partir de julho de 2005, e o seu lançamento no Brasil deu-se ao final do mesmo ano, com o título traduzido para Harry Potter e o enigma do príncipe.

O fato de Harry Potter se apresentar como um produto serializado foi significativo na definição sobre as migrações da narrativa para outras formas culturais. O livro vira audiolivro, filme, jogo eletrônico, RPG, entre outras adequações possíveis: a palavra escrita – ou mesmo a palavra falada – transforma-se em sons e imagens – prioritariamente digitalizada – pelos múltiplos mecanismos de apropriação e convergência, de interfaces e interatividades, de acordo com os novos padrões tecnológicos de produção e relação com os usuários. O livro, por si só um suporte midiático – forma e conteúdo em estreita relação (BAKHTIN, 1993) –, serve de base para variadas estratégias de migração digital em que, por processos de fusão ou fissão (VILCHES, 2003:234-235 e 244), a narrativa ganha espaço, transforma seu registro de temporalidade e circula em proporções ainda mais intensamente mundializadas do que quando seu suporte era apenas o livro.

Sabe-se já, de longa data, da existência de uma estratégia de mercado midiático cujo objetivo é o de articular, no limite, as diferentes indústrias culturais; são essas estratégias que permitem que as formas culturais circulem de mídia em mídia, por meio de adaptações ajustadas aos padrões emergentes.

Fala-se indistintamente de Harry Potter como texto, audiotexto, ou Harry Potter como imagem, como se um já tivesse se transformado no palimpsesto do outro ou, da mesma forma, um no hipertexto do outro:

Enquanto o tecido do palimpsesto nos põe em contato com a memória – e com a pluralidade de tempos – que todo texto carrega, acumula, o hipertexto remete à enciclopédia, às possibilidades presentes na intertextualidade e intermidialidade […] [assumir] a tecnicidade midiática como dimensão estratégica da cultura. (MARTÍN- BARBERO; REY, 2001:63)

Ainda que o livro continue sendo a origem, o ponto de partida de todo esse processo migratório, não há como se furtar ao fato de que se vive um momento em que “múltiplas escrituras” desafiam a percepção dos produtores culturais, assim como dos leitores, receptores, usuários:

Porque estamos diante de uma mudança nos protocolos e processos de leitura, que não significa, nem pode significar, a simples substituição de um modo de ler por outro, senão a articulação complexa de um e outro, da leitura de textos e da de hipertextos, da dupla inserção de uns em outros, com tudo o que isso implica de continuidade e rupturas, de reconfiguração da leitura como conjunto de modos muito diversos de navegar pelos textos. (MARTÍN-BARBERO; REY, 2001:62)

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Este artigo foi apresentado originalmente no XXX Intercom – Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação em 2007.
O artigo completo pode ser encontrado em pdf, aqui: PDF.

 

 

 

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