Memorial do Consumo

Papai Noel da Varig voava a jato pelo céu do Brasil

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Campanha natalina da Varig criada por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ganhou notoriedade com o jingle composto em 1960 por Caetano Zama

“Estrela brasileira no céu azul/Iluminando de norte a sul/Mensagem de amor e paz/Nasceu Jesus, chegou o Natal/Papai Noel voando a jato pelo céu/Trazendo um Natal de felicidade/E um ano-novo cheio de prosperidade”.

Com essa singela canção, a propaganda de fim de ano da Varig se transformou em um dos marcos do Natal para pelo menos três gerações de brasileiros. Criado em 1960 pelo compositor Caetano Zama, o jingle seria usado por muitos anos, em diferentes versões, sempre encerrando com a assinatura musical “Varig, Varig, Varig” – de autoria de ninguém menos que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

Antes de se tornar o todo-poderoso da TV Globo, Boni trabalhou com publicidade. “Nos anos 50 e 60, minha agência (Bel, Boni, Edmilson, Laerte) atendia a Varig. O primeiro jingle feito para a empresa foi criado por mim e pelo Victor Dagô. Para esse jingle foi feita a assinatura musical. No entanto, o Rubem Berta, então presidente da Varig, considerou que uma companhia aérea não deveria fazer anúncios musicados. Então, vendi a ele a idéia de ter uma assinatura musical e usá-la em spots de locução no rádio e na TV”, conta Boni. Nascia, assim o “Varig, Varig, Varig”.

A primeira peça criada pela agência de Boni para a empresa foi um comercial sobre financiamento de passagens. Depois vieram outros trabalhos, até que o diretor de propaganda, Clóvis Hazar, resolveu usar uma mensagem musical no Natal. “Fiz um roteiro, Estrela das Américas, com um Papai Noel voando a jato, e pedi ao amigo Caetano Zama que desenvolvesse uma trilha para o filme e que usasse a assinatura sonora da Varig, naquele momento já uma marca. Caetano apareceu com um jingle lindo, encaixando a nossa assinatura”, lembra Boni, hoje dono da TV Vanguarda (no Vale do Paraíba, interior paulista).

O próprio Boni fez o story board, segundo César Mêmolo, um dos sócios da Lynxfilm, produtora que fez mais de 300 comerciais para a Varig. O primeiro filme de Natal era bem simples: ainda em preto e branco, as notas musicais da melodia desfilavam pela tela enquanto um lettering exibia os versos na parte de baixo do vídeo.

As técnicas de animação eram artesanais: os desenhos eram elaborados em papel, depois os traços eram transferidos para o celulóide e, em uma terceira etapa, vinha a pintura. Depois de todo esse trabalho as imagens iam para a mesa de filmagem para serem gravadas quadro a quadro. O comercial das notas foi usado por alguns anos, até ser substituído por outro no início da década de 70.

Nessa época Boni já estava trabalhando na Globo e a Varig havia criado sua própria agência de publicidade, a Expressão, comandada por Carlos Ivan Siqueira. A empresa tinha uma relação estável com seus fornecedores: a Lynx produzia os comerciais; a RGE, a trilha sonora. Depois do sucesso da peça “Seu Cabral”, em 1967 Arquimedes Messina passou a ser o jinglista “oficial” das propagandas da Varig.

O jingle de Natal teve diversos arranjos e o comercial, várias versões, quase todas em forma de animação. Mas pelo menos uma delas foi estrelada por pessoas. Nela, um coro de comissários de bordo e pilotos aparecia cantando a canção ao vivo.

A Varig, que nos anos 60, 70 e 80 foi a principal companhia aérea brasileira, começou a ter problemas em 1990, com o início da concorrência de empresas estrangeiras nas rotas internacionais, e entrou em um longo período de crise que acabou culminando com o seu leilão em junho de 2006. Apesar das dificuldades, seus aviões continuam no ar e sua propaganda está na memória de muita gente.

Confira:

Ficha técnica
Ano: 1960
Anunciante: Varig
Produto: Institucional
Agência: Bel, Boni, Edmilson, Laerte
Criação e direção de criação: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni)
Produtora: Lynxfilm
Direção de arte: Laerte Agueli
Produtora de som: RGE
Trilha sonora: Caetano Zama

Este texto faz parte do livro “Campanhas Inesquecíveis”, publicado em 2007 pelo Meio & Mensagem.

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