Memorial do Consumo

Duchas Corona dá Banho de Alegria num Mundo de Água Quente

coronaNa propaganda brasileira, muitas campanhas se tornaram memoráveis mais pelos jingles que embasavam a trilha sonora do que propriamente pelas Imagens ou os slogans. Um caso clássico são as Duchas Corona, aquelas do “um banho de alegria num mundo de água quente”. A Corona foi a pioneira no desenvolvimento de um chuveiro feito com plástico de engenharia – na época, nos anos 60, o material só era usado para fabricação de utilidades domésticas, como baldes, mamadeiras e outros itens.

A ducha produzida com plástico tinha como grande vantagem o preço baixo, o que tornava o equipamento acessível às camadas mais baixas da população – tanto que ainda hoje as vendas passam dos 60 milhões de unidades por ano. Em 1972, a empresa encomendou à Marcel’s uma campanha para rádio e TV, a primeira da marca. A agência, por sua vez, passou o briefing para a Publisol, então uma das maiores produtoras de som de São Paulo.

A encomenda caiu nas mãos de Francis Monte (nome artístico do músico Francisco Monteiro), que há tempos esperava uma chance de mostrar seu talento como compositor. Ele foi descoberto pelo produtor José Mário, o conhecido lelão, quando trabalhava com Abelardo Figueiredo na casa de shows O Beco. “Eu fazia músicas para eventos de empresas, convenções de vendas, lançamento de produtos. O lelão viu, gostou e me chamou para trabalhar na Publisol”, conta Monte.

Após alguns meses atuando apenas como músico, o compositor ganhou sua primeira encomenda de jingle, exatamente o das Duchas Corona. Foi o pontapé inicial de uma carreira que, em mais de 30 anos, produziu algo em torno de 15 mil jingles, dos quais cerca de 400 ainda tocam nas rádios. O próprio Monte continua na ativa com sua produtora, a Keeton Secker (o nome é uma brincadeira, pronuncia-se “que tom ‘cê’quer”), em Ribeirão Preto.

Música pronta, o trabalho foi apresentado ao staff da agência, que recusou a produção alegando que o objetivo da campanha era vender chuveiro, e não sabonete – “apanho um sabonete” é o verso inicial das três estrofes da canção.

Inconformado com a rejeição, lelão não teve dúvidas: levou a fita diretamente ao cliente. O dono da Corona, Amilcar Yamin, adorou e aprovou imediatamente a música, que acabou se transformando em trilha sonora de todos os comerciais da empresa nos 12 anos seguintes. No primeiro, uma das cenas mostrava um homem tomando banho feliz em uma cachoeira, uma alusão à generosa quantidade de água que a ducha fazia cair sobre seus usuários. Infelizmente não foi possível identificar a produtora do filme.

Depois de muitos anos a campanha acabou saindo do ar, e por pouco não foi definitivamente arquivada: o dono da companhia queria sofisticar a linha de produtos e achava que o jingle identificava a marca como algo dirigido às classes populares. Pesquisas mostraram, entretanto, que a canção transcendia esse público e era muito bem-aceita por todas as camadas sociais.

Assim, a empresa passou a oferecer produtos de maior valor sem abandonar sua comunicação tradicional, embora tenha permanecido fora da mídia por algum tempo. Em 2006 a Corona voltou a investir na divulgação de seus lançamentos, ações de merchandising em programas como Big Brother Brasil (da Globo) e Pânico na TV (Rede TV) Em algumas lojas foram colocados displays interativos, que tocavam o jingle  quando alguém passava diante da peça em exposição.

E as novasgerações também vão aprender a cantar ‘Apanho um sabonete, pego uma canção e vou cantando sorridente, duchas Corona, um banho de alegria num mundo de água quente/ Apanho um sabonete, abro a torneira e de repente a gente sente, duchas Corona, um banho de alegria num mundo de água quente/ Apanho um sabonete, é duchas Corona dando banho em tanta gente, duchas Corona um banho de alegria num mundo de água quente”.

Ficha Técnica
Cliente: Corona
Produto: Duchas
Ano de produção: 1972
Agência: Marcel’s
Produtora de Som: Publisol
Composição: Francis Monte

Este texto faz parte do livro “Campanhas Inesquecíveis”, publicado pelo Meio & Mensagem, em 2007.

SOBRE O AUTOR