Memorial do Consumo

Seagram dá primeiros passos do politicamente correto

 

Antes mesmo de as fabricantes de bebidas alcoólicas no Brasil serem obrigadas a incluir o alerta “Beba com moderação” nos rótulos e na propaganda de seus produtos, a canadense Seagram já procurava realizar, na década de 70, ações institucionais para despertar a atenção do público com relação aos perigos do alcoolismo. A principal aconteceu na TV em 1973, com um filme criado pela DPZ que alertava a população sobre a necessidade do consumo responsável de bebidas alcoólicas. A peça ganhou prêmios nacionais e internacionais.

A maioria das pessoas com pouco mais de 40 anos ainda lembra do simples – mas célebre- comercial que mostrava um garotinho loiro olhando fixamente para a câmera com um olhar sério. Durante um minuto, tempo de duração do filme, um texto é narrado em off à medida que as feições da criança começam a se alterar. O locutor conta que “não existe nada mais triste para os olhos de uma criança do que ver que o próprio pai bebeu demais”, e discorre sobre a relação entre pais e filhos com uma linguagem de apelo emocional. Ao falar desse afeto, o menino lentamente começa a abrir um sorriso, que é completado quando o texto chega ao fim. A locução destaca que, se os pais derem exemplo, as próximas gerações saberão que a bebida é só para dar prazer e alegria.

O comercial foi criado por José Zaragoza, sócio da DPZ. Até hoje o publicitário lembra do repertório de argumentos que desfilou para convencer o responsável pelo marketing da companhia a produzir um filme para TV sobre responsabilidade social, expressão que nem se usava na época. O criativo relata que a Seagram tinha o hábito de veicular campanhas desse tipo, mas apenas em jornais e pelo menos uma vez por ano. O cliente, no primeiro instante, não aceitou o comercial.

Mesmo diante da negativa, Zaragoza teimou e levou o projeto adiante, justificando que faria o filme com recursos próprios apenas para guardar como portfólio da DPZ. Convidou o polonês naturalizado brasileiro Andrés Bukowinsky, diretor da ABA Filmes, que, em retribuição aos favores de Zaragoza quando se estabeleceu no Brasil anos antes, aceitou participar do trabalho dividindo os custos com a agência. A imagem do garoto sorrindo no estúdio ocupou apenas 35 centímetros de uma película de 35 milímetros, e cada frame foi dividido 70 vezes. Sem possibilidade de veiculação da peça, Zaragoza decidiu inscrevê-Ia no Festival de Cannes. Na época, o Brasil participava do evento com poucas campanhas e nem se cogitava a caça aos fantasmas. Resultado: o filme conquistou Leão de Prata, o que rendeu uma série de matérias nos jornais naquele período em que o Brasil vivenciava a euforia do “milagre econômico”. “O cliente, um leitor voraz de jornais, leu sobre o sucesso da campanha e resolveu veiculá-la, mas deixei claro que isso só seria possível se a companhia arcasse com os cus- tos de todo o projeto. Foi o que aconteceu”, lembra Zaragoza. A Seagram Co., até então controlada pelo grupo francês Vivendi Universal, foi comprada em dezembro de 2001 pelo britânico Diageo e pelo também francês Pernod Ricard, originando a atual Seagram do Brasil Pernod Ricard.

 

 

Ficha técnica

Ano: 1973
Título: “Das lágrimas ao sorriso”
Anunciante: Seagram do Brasil
Produto: Institucional
Agência: DPZ
Criação: José Zaragoza
Direção de criação: José Zaragoza
Produtora: ABAFilmes
Direção/filme: Andrés Bukowinsky

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