Memorial do Consumo

O envelhecimento hype

A dissertação da mestranda Kareen Regina Terenzzo olhou para estetização da velhice na comunicação e no consumo. Para isso, ela estudou a empresária e celebridade Jane Fonda, que se coloca como porta-voz e modelo de um envelhecimento bem-sucedido – “o terceiro ato da vida”. Para Fonda, trata-se de uma segunda vida adulta, que segundo ela estaria “disponível a todos” e para tanto propõe uma nova metáfora acerca do envelhecimento: a da escada. Nessa escada (que há de se subir “a de eterno”) configura-se um modelo de “envelhecer com sucesso” fundamentado no “eu como projeto”, no “eu empreendedor”; e desse modo, em consonância com o capitalismo na sua configuração neoliberalista.

Jane Fonda lança em 2013 mais um video para ginástica em casa.
Jane Fonda lança em 2013 mais um video para ginástica em casa.

A pesquisa nasceu a partir da observação de imagens de mulheres mais velhas na mídia, que de um modo geral, têm se apresentado como narrativas de imagens-estilo- de-vida: são modelos, prescrições e exemplos sobre como envelhecer de uma forma considerada bem-sucedida. A autora chamou de forma irônicas essas narrativas como “o hype do envelhecimento”: um efusivo movimento sobre o envelhecimento, que parece “mais um assunto na moda” do que uma preocupação acerca da velhice ou com os mais velhos. Essas narrativas tendem a construir e mostrar um modelo de envelhecimento esteticamente arrojado e fundamentado, predominantemente, na aparência jovem, no condicionamento físico, na vida ativa /produtiva e na felicidade permanente.

Fizemos algumas perguntas à autora sobre o seu trabalho, a ligação dele com os problemas do dia a dia e sobre o processo de fazer um mestrado:

1. Qual foi a sua reflexão?

Diante da inquietação acerca dessas narrativas-imagens- estilo-de- vida surgiu a pergunta: como pensar o envelhecimento se a todo momento são produzidas e reproduzidas imagens na mídia que promovem a juventude como valor, especialmente, para as mulheres? Fazendo uso do campo da moda, eu chamei esse modelo de envelhecimento de prêt-à- porter: um “modelo de envelhecimento” que se apresenta como se pudesse ser comprado como uma roupa – de uma arara ou vitrine – e servisse a todas as mulheres.

2. Por que essa reflexão é importante para nós, enquanto sociedade?

Somos impactados diariamente pela comunicação de imagens e enunciados que reforçam padrões de consumo, como o de envelhecer adequadamente. Trata-se de uma convocação para uma constante melhoria de performances, uma “corrida contra o tempo” para que não se entre na obsolescência. Há que se considerar ainda, decorrente do “eu como projeto”, a reprivatização da velhice que nos impede ou limita a pensarmos o envelhecimento de forma coletiva e social. No caso das mulheres, estas sofrem ainda do duplo preconceito – o sexismo/machismo e o idadismo, por isso minha pesquisa tem como foco o envelhecimento feminino.

3. O que você descobriu? Quais foram os resultados?

Como parte dos resultados da nossa análise, prevalece o “envelheça, graciosamente, sem parecer velha”. Esse modelo de envelhecimento tem suas bases no ethos da modernidade – o espírito do tempo que tem a juventude como valor e apresenta-se fundamentado na vida como espetáculo e entretenimento. Para ser alguém que envelheceu “com sucesso” há que se ser elegante, estar na moda, ser ativa, saber se reinventar, ser divertida, “alto-astral” e ativa sexualmente. Para tanto, é necessário adotar certas condutas na autogestão para servir de exemplos positivos e assim justificar a terceira idade como um estilo de vida. Entretanto, terceira idade ou não, celebridades ou não, o fato é que todas as mulheres, são julgadas pela sua aparência e independente de sua idade. Essas condutas fazem parte do ethos da modernidade das sociedades neoliberais e se aplicam a todos que possam arcar com os custos, obviamente.

4. Fale um pouquinho da experiência de ter feito a pesquisa.

Metaforicamente, o processo do mestrado se apresentou para mim como um trekking. Quem faz ou já fez trekking sabe o quão difícil é carregar, além do peso do seu próprio corpo, também o de seus pertences. Na primeira experiência sempre carregamos coisas demais. Escolhemos o trajeto mas desconhecemos o caminho, e, ao seguirmos, nos deparamos com novas paisagens que entusiasticamente queremos adicionar na nossa mochila, como souvenirs de viagem. Mas a mochila não comporta tudo. Com o tempo e a prática de caminhar, aprendemos a selecionar melhor nosso trajeto e a só carregar o que de fato precisamos levar. Caminhadas como essas, geralmente não fazemos sozinhos. Contamos com uma companhia, um guia, um grupo de pessoas que nos acompanham. Muitas vezes encontramos novas pessoas durante o trajeto. Ainda assim, a jornada é única e a experiência pertence tão somente a cada caminhante.

 

A Kareen escreveu um artigo baseado nessa pesquisa e ele foi publicado no COMUNICON de 2016. Se você se interessou pelo assunto, pode ler o artigo “Envelhecimento Prêt-à-Porter: um olhar sobre a Velhice Estetizada na Comunicação e Consumo” inteiro aqui: http://anais-comunicon2016.espm.br/GTs/GTPOS/GT6/GT06-KAREEN_TERENZZO.pdf

SOBRE O AUTOR

é curiosa, adora viajar e perguntar o porquê das coisas. Se formou na ESPM e trabalhou em grandes agências. Hoje atua como redatora, pesquisadora e estrategista independente. É mestranda do PPGCOM-SP