Memorial do Consumo

Comunicação e Consumo no filme Meia Noite em Paris

Por Gabriela Pereira e Mike Akama Mazurek

A trama do filme “Meia-noite em Paris” (2011), do diretor de cinema Woody Allen, gira em torno do protagonista Gil Pender, um escritor norte-americano angustiado pelo seu trabalho em Hollywood como roteirista. Gil Pender sente que o trabalho que produz não é uma obra boa o bastante para ser lembrada, o que fica claro em um diálogo com sua sogra, onde ela conta que foi ao cinema na noite anterior assistir um filme americano “deliciosamente engraçado” e, quando questionada sobre os atores, diz não se lembrar quem eram e então, Gil Pender diz: “Ótimo, mas fácil de esquecer. Parece um filme que eu vi, provavelmente fiz o roteiro.” Esse diálogo evidencia um aspecto presente em diversos momentos da trama, a qual pode ser vista como uma crítica constante à Indústria Cultural.

Como nos explicam Adorno e Horkheimer (1985), a Indústria Cultural está mais preocupada com a padronização da estética do que com o conteúdo, já que para eles qualquer conteúdo que se encaixe nesses padrões estéticos terá sucesso e consequentemente, lucro. O que importa é produzir um produto cultural que possa ser lucrativo e consumido pelas massas e, como podemos ver no filme, Gil Pender faz parte dessa indústria. Apesar de não estar satisfeito com seu trabalho, ele é um roteirista bem-sucedido e ganha muito dinheiro produzindo filmes dentro deste padrão estético da Indústria Cultural, porém, sua paixão pela cidade de Paris lhe desperta o desejo de desistir da sua carreira e se tornar um escritor devotado a “verdadeira arte”.

Durante os créditos iniciais do filme, há um diálogo em off entre Gil Pender e sua noiva Inez, Gil está conversando sobre a possibilidade de desistir de sua produção Hollywoodiana para se tornar um escritor em Paris, no entanto, sua mulher, que representa uma americana estereotipada (assim como seus pais), demonstra repúdio à ideia afirmando que “nunca poderia morar fora dos Estados Unidos” e então Gil afirma que, se tivesse “ficado em Paris escrevendo romances e não preso a roteiros de cinema enfadonhos”, seria mais feliz. Esses filmes Hollywodianos ilustram a padronização de narrativas vendáveis sem qualidades que se exaltem, sendo o protagonista, Gil, parte dessa grande Indústria.

A questão da Indústria Cultural também está evidente no filme no que diz respeito a sua capacidade de alienação, que é representada por Inez e sua família. Mesmo quando estão consumindo produtos culturais e obras de arte em museus e exposições, por exemplo, não há um pensamento crítico, não há um verdadeiro interesse pela obra, elas não são vistas com a ideia de reflexão e apreciação e sim, são vistas por eles porque “precisam” ser consumidas uma vez que se está em Paris e os museus e obras de arte fazem parte do circuito de consumo da cidade. Até mesmo as caminhadas de Gil Pender acompanhando sua noiva, demonstram que existem lugares pré-definidos para o consumo da arte transformada em produto, vide os passeios pelos museus e boulevards de Paris.

Como afirmam Adorno e Horkheimer (1985), na Indústria Cultural não há espaço para um pensamento crítico, a padronização da estética faz com que a arte se torne uma forma de entretenimento e não de reflexão e é assim que os personagens representados pela família de Inez se relacionam com Paris e toda a sua produção cultural, como uma forma de entretenimento.

O núcleo de Inez e sua família também ilustra perfeitamente um padrão de vida pecuniário e ostentatório, o que podemos observar na maioria das cenas em que Gil interage com a noiva e sua família, que demonstram um padrão de vida totalmente contraditório da imagem que ele busca para si. Inez e sua família representam o que o autor Thorstein Veblen (1965) denomina de “classe ociosa”, para o autor, “À medida que acumula riquezas, a classe ociosa desenvolve-se em suas funções e em sua estrutura, surgindo dentro de si uma diferenciação; um sistema mais ou menos elaborado de status e posições”. (1965, p.38). Essa característica de acumulação de riquezas para a criação de status e diferenciação social está presente na família de Inez em diversas passagens do filme, como os restaurantes luxuosos que frequentam ou na cena em que a sogra de Gil Pender afirma que 18 mil euros por uma cadeira “que é difícil de encontrar parecida nos Estados Unidos” é uma “pechincha”.

Através deste exemplo da cadeira européia e a indiferença da família de Inez, podemos observar os conceitos do autor Georg Simmel (2009) sobre a arrogância blasé das classes com dinheiro e também a transformação do caráter “europeu antique”, um aspecto qualitativo, em quantitativo, logo a família está comprando um objeto que está “vestido de cultura européia” e não somente uma cadeira pela sua utilidade como cadeira.

Como Simmel explana:

“Elas [classes com dinheiro] têm, agora, um instrumento que permite, apesar da sua indiferença uniforme, comprar o mais variado e o mais especial. E a sensibilidade sutil para as atrações específicas e individuais das coisas atrofia-se mais e mais, porque a pergunta sobre o valor qualitativo está cada vez mais reprimida, nessas classes, pela pergunta sobre o valor quantitativo, pois exatamente isso é a arrogância blasé: não reagir mais às diferenças e propriedades específicas dos objetos com uma graduação correspondente da sensação, mas sim senti-Ias de maneira nivelada e, por isso, com uma coloração abafada sem amplitudes significantes de contrastes”. (SIMMEL, 2009, p.9)

Também é interessante ressaltar que as primeiras imagens do filme mostram diversos recortes da cidade de Paris, mostrando símbolos turísticos e culturais como a Torre Eiffel, Moulin Rouge e Arco do Triunfo, por exemplo, quase oferecendo um “pacote de experiências” que pode ser consumido na cidade, basta ter o dinheiro para isso. Esse “pacote” turístico de Paris, fácil de ser consumido quando se tem dinheiro nos remete a ideia de Simmel (2009), de que o dinheiro faria com que tudo perdesse o seu lado qualitativo, objetivando todas as experiências de consumo (representadas no filme pelo consumo da própria cidade de Paris), além disso, o aspecto simbólico da aspiração de Gil pender que a Paris representada no filme pode ser vendável, afinal, na narrativa, a cidade é colocada com a solução para um escritor que busca a inspiração através do “consumo” de Paris.

Se formos observar o consumo que está alocado no filme, podemos encontrá-lo em diversas ocasiões, como, por exemplo, as compras da família de Inez, os hotéis luxuosos, o consumo do próprio Gil Pender de livros, Vinis e os brincos de sua amante, esses exemplos ilustram bem a ideia de Simmel. Segundo o autor,

“O lado qualitativo dos objetos perde a sua importância psicológica por causa da economia monetária. O cálculo necessariamente contínuo do valor em dinheiro faz com que este apareça, finalmente, como o único valor vigente. Vivemos passando, sem perceber, cada vez mais rápido, pelo significado específico, não-qualificável, das coisas, e este se vinga, agora, por meio daqueles sentimentos, tão modernos, que abafam, enfraquecem”. (2009, p.8)

Passando para outro aspecto do filme, ao fazer suas viagens no tempo, Gil Pender interage com diversos artistas da década de 20 que “respiravam” a Cidade Luz e que se tornaram extremamente famosos, apesar da interação acontecer em um período anterior a essa conquista da notoriedade. Na primeira volta ao tempo conhecemos a casa da escritora Gertrude Stein, onde tanto no filme quanto na realidade, era ponto de encontro de diversos artistas como Picasso, Ernest Hemingway e Matisse, por exemplo. A casa está repleta de obras e produtos culturais, chegando próximo a uma ostentação dessa produção cultural. Ali vemos em alguns momentos a arte transformando-se em um mero produto decorativo, remetendo novamente a questão da Indústria Cultural citada anteriormente.

Ainda na casa de Gertrude Stein, outra cena é importante para relacionarmos com a questão do valor de uma obra de arte. Quando o personagem Gil Pender volta no tempo e vai até a casa da escritora, ela está negociando o preço de um quadro do artista francês, Matisse e então ela pergunta para Gil se ele acha que 500 Francos por uma obra de Matisse é um valor justo a se pagar. Gil se impressiona com o valor tão baixo para obras de um artista tão renomado e diz que também quer comprar alguns. É interessante observar na cena o fato de se passar em um período anterior a valorização dos quadros de Matisse e novamente a questão do dinheiro de Georg Simmel (2009), naquele momento o que estava sendo negociado era o preço de uma obra de arte e se ela tinha valor o suficiente para custar 500 Francos e não todo o significado histórico e cultural de Matisse, ali a arte também se transforma em uma mercadoria e o dinheiro entra como o equalizador de tudo e todos, novamente, a transformação do caráter qualitativo (expressão do artista) em quantitativo (500 Francos).

Outra cena que nos mostra a obra de arte como um produto é quando Gil pender encontra os artistas surrealistas Bunuel, Dali e Man Ray em um bar e começa a contar para eles o dilema pelo qual está passando (ter se apaixonado por uma mulher de uma época que não é a dele), à partir da narrativa contada por Gil, cada um dos personagens cria um produto cultural de acordo com sua área de atuação. Bunuel diz que a história de Gil poderia se transformar em um filme, Man Ray, em uma fotografia e Salvador Dali, em um rinoceronte (humor com a fixação de Dali por rinocerontes em suas obras). A cena, apesar de ser anterior a noção de Indústria Cultural e não tratar especificamente das características dessa indústria, nos mostra como desde (quase) sempre, os produtos e obras culturais podem ser pensadas como uma mercadoria e como uma forma de entretenimento.

Outra cena bastante representativa do ponto de vista da Indústria Cultural é uma em que Gil Pender encontra em uma loja um disco do cantor e compositor, Cole Porter, por 18 euros. Algumas noites atrás Gil ao voltar no tempo se encontrou em uma festa onde Cole Porter estava cantando e tocando no piano uma canção que mais tarde, seria uma das mais conhecidas de sua carreira. Naquele momento, Cole Porter estava cantando em uma festa para entreter os convidados (apesar daqueles que estavam ali reconhecerem sua genialidade), alguns anos mais tarde, apesar do filme não mostrar, sabemos que Cole Porter tornou-se uma figura muito conhecida e suas canções adquiriram grande notoriedade e por fim, na cena em que Gil está no presente, nos deparamos com um disco do cantor em um loja no meio de vários outros discos, sem destaque algum, deixando claro que um disco que foi reproduzido inúmeras vezes graças ao avanço tecnológico da Indústria e tornou-se apenas mais um produto musical.

No filme também é possível ilustrar as Exposições Universais que aconteceram em Paris. Segundo Pesavento (1997) essas exposições demonstravam a maneira como as nações, através da ostentação de poder e dinheiro, buscavam prestígio e ainda afirmavam a sua posição perante outras nações. A própria Torre Eiffel que hoje se tornou o símbolo de Paris, foi construída para a Exposição Universal de 1889 sendo declarada a construção mais alta do mundo, ilustrando um marco do progresso tecnológico/cultural e simbolizando o bem-estar dos franceses.

Além disso, em uma de suas viagens no tempo, Gil Pender está conversando com Adriana (personagem do passado por quem se apaixona) em uma festa e então ela diz querer mostrar uma coisa para ele. Ela mostra para Gil um carrossel que afirma ser “da virada do século”, sua época favorita. O carrossel seria então um símbolo da virada do século e consequentemente da Exposição Universal de 1900, época em que Paris era vista como a capital do mundo, este carrossel apresenta uma estética composta por luzes e triciclos metálicos, apresentando uma estética atraente também simbolizando o avanço industrial da França daquela época, nas palavras de Pesavento, “Neste mundo dominado pela fantasmagoria, o espetáculo da modernidade armaria o próprio palco para demonstrar a exemplaridade do sistema: as exposições universais” (PESAVENTO, 1997, p. 41). No diálogo que se sucede após a apresentação da possível criação para uma Exposição Universal, Adriana e Gil apresentam suas visões de Paris, podemos observar que ele deixa claro que vê Paris como centro do mundo, uma imagem da cidade claramente construída pelo imaginário do século XIX e século XX, uma cidade espetáculo.

A relação de Gil Pender com a cidade de Paris pode ser uma consequência positiva daquilo que o autor Walter Benjamin (2006) narra em seu ensaio “Paris, a Capital do século XIX”. Aos olhos de Benjamin, a Paris daquele século era o símbolo da modernidade burguesa, todas as mudanças que aconteceram na cidade, desde a relação entre as pessoas e a cidade, as reformas de Haussman, as exposições universais e a mudança radical nas ruas de Paris, expostas no texto de Benjamin, fizeram com que fosse possível existir a Paris pela qual Gil Pender é apaixonado, a Paris que inspira a criação a produção cultural.

Por fim, uma das cenas finais da trama mostra o personagem Gil Pender saindo da livraria Shakespeare and Company, o que provavelmente não é uma coincidência e foi uma cena colocada propositalmente pelo diretor Woody Allen, já que a livraria é uma loja que carrega muita historicidade em si, uma vez que vários dos artistas da década de 20 que aparecem no filme também passaram por ali, e também por mostrar novamente a questão do consumo de obras culturais como mercadorias de entretenimento.

Como observamos, o filme “Meia Noite em Paris” é muito representativo no que diz respeito ao estudo de diversas teorias como a Indústria Cultural, o mundo burguês, e as relações entre a cidade e o dinheiro. O próprio personagem Gil Pender personifica essas teorias muitas vezes durante o filme. O fato do personagem estar insatisfeito com seu trabalho como roteirista de filmes Hollywoodianos nos mostra tanto a questão do envolvimento com a Indústria Cultural (que o personagem quer tanto fugir), quanto da relação que temos com o dinheiro. De acordo com o autor Georg Simmel, com o dinheiro “sentimos que o núcleo e o sentido da vida escapam sempre, a cada vez, das nossas mãos; as satisfações definitivas realizam-se cada vez menos; sentimos, enfim, que todo esforço e toda atividade, na verdade, não valem a pena.” (2006, p.8 e 9), e é exatamente assim que Gil Pender se sente.

Ele faz parte da Indústria Cultural e com isso ganha muito dinheiro, porém está infeliz porque não tem ao menos a possibilidade de produzir algo culturalmente relevante, ao viver nesse “modo automático” ele vê diversos aspectos da sua vida perdendo o sentido e então ele vê em Paris, uma oportunidade para retomar ou ressignificar esses mesmos sentidos. Talvez Gil Pender também simbolize um alter ego do diretor Woody Allen, que de certa maneira está preso nas engrenagens da Indústria Cultural com seus filmes e sente a necessidade de vez ou outra, romper com esses padrões impostos culturalmente. Ao final do filme, quando seu personagem finalmente consegue sair deste ciclo com a decisão de ficar em Paris, o roteirista, ironicamente, continua no mesmo, produzindo narrativas para a indústria de filmes de Hollywood.

Referência bibliográfica

ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. “A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas”. In: Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

BENJAMIN, Walter. “Paris, a Capital do Século XIX” In: Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.

PESAVENTO, Sandra J. Exposições universais: espetáculos da modernidade do século XIX. São Paulo: Hucitec, 1997.

SIMMEL, Georg. “O dinheiro na cultura moderna” In: Psicologia do dinheiro e outros ensaios. Lisboa: Texto & Grafia, 2009.

VEBLEN, Thorstein. “Consumo conspícuo” In: A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. São Paulo: Pioneira, 1965.

SOBRE O AUTOR

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas do Consumo da ESPM-SP. Graduada em Publicidade e Propaganda pela ESPM-SP.