Memorial do Consumo

Por que a escola e a televisão ainda mantêm uma relação tão distante?

Resenha do artigo “Televisão e escola: aproximações e distanciamentos” (2002),  de Maria Aparecida Baccega.

Por Maria Beatriz Portelinha

 

F04-10839Desde o seu surgimento no Brasil, na década de 50, a televisão tem uma grande importância na vida dos brasileiros. É por meio da televisão que assimilamos os conteúdos culturais populares, entendendo suas linguagens, seus conteúdos, suas particularidades e influência no tecido da cultura. Acredita-se que tudo que é relevante no cotidiano do país passe pela televisão, alçando-a ao status de “coisa pública”: se tudo que é relevante está retratado na televisão, consequentemente o que não passa na televisão não aconteceu. Os conteúdos televisivos pautam as discussões sociais entre as famílias e amigos, sugerindo pautas do que é relevante na atualidade. Segundo Baccega (2002, p.01), a televisão também atua “na área dos valores”, ajudando a construir percepções da sociedade e transmitir valores e modos de comportamento em seus conteúdos.

Segundo a autora, as crianças brasileiras já chegam à escola alfabetizadas na linguagem audiovisual. Diferente das sociedades europeias, que tiveram uma grande fase de sua história baseada na linguagem escrita, a sociedade Brasileira e a América Latina, sem o devido incentivo para cultivar a escrita, tiveram uma passagem quase que direta da linguagem oral para a linguagem audiovisual. Dessa maneira, as crianças chegam na escola já acostumadas com uma linguagem visual onipresente, com uma alfabetização múltipla proporcionada pelos meios de comunicação. Assim, segundo Baccega (2002, p.03), “temos o que se pode chamar de oralidade secundária, mais ligada aos meios de comunicação, sobretudo à televisão, que aos livros”.

criança tv2Para Baccega, a sociedade precisa deixar de entender a Televisão como um vilão na educação das crianças. Por mais que a educação tenha em sua tradição a linguagem escrita, é preciso abrir os horizontes e perceber que os conteúdos transferidos pelos meios de comunicação às crianças possuem um grande potencial de ensino. A televisão não deve ser encarada como um substituto ao professor, mas pode ser entendida como uma ferramenta de auxílio ao ensino. Se antes a leitura tinha a última palavra sobre o que era verdade ou não, agora as imagens podem trazer aos alunos a realidade de ver os fatos com os próprios olhos ao invés de acompanha-los através de narrativas escritas.

“É preciso deixar de encarar a televisão como inimiga, como suspeita, pelo fato de ela ser divertida – o que é divertido também pode educar; deixar de usar a televisão, o vídeo como meros “ilustradores” das aulas baseadas em linguagem escrita. Como vimos, a televisão traz outra linguagem, na qual o aluno está alfabetizado e que a escola precisa saber usar para obter êxito em seus objetivos. Usar a televisão, portanto, não como “substituta” do professor (que ela nunca será), nem como equipamento “modernizador” que tem como base os mesmos conteúdos ultrapassados ainda veiculados pela escola”  (BACCEGA, 2002, p. 04).

Apesar de todo o excesso de informação que as crianças podem ter acesso por meio da televisão, é preciso entender que a televisão proporciona “um conjunto de conteúdos que constituem um estímulo para a imaginação, a aprendizagem e a vida” (BACCEGA, 2002, p. 20). O que a televisão oferece são janelas para o mundo, que aproximam as crianças da realidade e as proporcionam crescimento pessoal. Assim, a autora propõe que não tentemos separar a televisão e a escola: ambas proporcionam conhecimento, oferecendo um aprendizado contínuo. Os desafios, a partir disso, seriam pensar em como os meios de comunicação podem chegar de modo construtivo às escolas e em como o conhecimento pode chegar à televisão.

SOBRE O AUTOR

Maria Beatriz Portelinha é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas do Consumo da ESPM-SP.