Memorial do Consumo

O apocalipse do Facebook e a nossa própria queda

Onde está sua curtida agora?

O que o Facebook fala sobre nós?

São Paulo, 02 de abril de 2018 – “É o fim do mundo como o conhecemos”, diz a música da banda R.E.M. na década de 80. Mas ao contrário de como segue o refrão “E eu me sinto bem”, não tenho tanta certeza assim de que tudo esteja ok.

Parece que assistimos à plataforma Facebook agonizar na praça pública online nos últimos dias. Caso você tenha ficado fora do planeta nos últimos tempos, vamos a um pequeno resumo cronológico dos fatos até o momento em que escrevo este artigo:

1°) Matéria da Wired

Na reportagem de capa da edição de março, explicou-se que Zuckerberg não quis admitir que sua rede tinha se transformado em uma plataforma de mídia. Caso contrário, teria que se explicar ao congresso americano, por ter sido responsável por propagar as fake news sobre Hillary, disseminadas por russos, e que foi responsável pela eleição de Trump. Então simplesmente voltou atrás e o algoritmo deixou de privilegiar informações de empresas para se voltar a seu princípio de “pessoas para pessoas”.

2°) Isso motivou a saída da Folha de S. Paulo

No dia 08 de março, o veículo deixou de publicar na rede social. Ainda mais que Segundo o jornal que a mudança no algoritmo “reforça a tendência do usuário a consumir cada vez mais conteúdo com o qual tem afinidade, favorecendo a criação de bolhas de opiniões e convicções, e a propagação das ‘fake news’.”

3°) Escândalo da Cambridge Analytica

No último dia 17 veio à tona a denúncia de que a empresa britânica de big data (análise de grande volume de dados, possível hoje pelas tecnologias atuais) roubou os dados de 50 milhões de eleitores americanos no Facebook que responderam a um simples quiz, como um daqueles em que você se via como alguém do sexo oposto. Dados que foram capazes de influenciar e talvez mudar os rumos de dois pleitos em que a Cambridge Analytica trabalhou: a eleição de Trump e o Brexit. Vale lembrar que a corporação promete aportar por terras brasileiras nas eleições deste ano.

4°) Mark Zuckerberg pede desculpas e promete reforçar segurança de dados

O fundador do Facebook reconheceu o erro no caso do vazamento de dados com a consultoria Cambridge Analytica, o que fez a coporação perder quase US$ 50 bi de valor de mercado em apenas dois dias. O caso levou ao que exatamente Zuckerberg queria evitar: ele foi chamado a prestar esclarecimentos ao Congresso americano.

5º) Descobre-se que a rede coleta ligações e conteúdos de SMS

Alguns dias depois, em 25 de março, usuários do Facebook reportaram que após fazer o download dos dados da própria conta na rede social, descobriram que o arquivo continha um histórico de ligações e também dados de mensagens enviadas e recebidas por celular. É uma violação à privacidade.

6º) A Serasa Experian encerra parceria com o Facebook

Uma das grandes vantagens de se anunciar na rede social era a capacidade de segmentação precisa por faixa de renda. Isso só era possível aqui no Brasil devido à parceria com a Serasa Experian, que ainda fornecia os dados de negativados. O rompimento foi uma resposta da Serasa à crise da Cambridge Analytica.

E agora?

Ainda é difícil prever o que deve acontecer daqui pra frente. É incerto se o Facebook deixará de existir e se outra rede social, como o Vero, tomará o lugar.

Fato é que o mundo como o conhecemos hoje se deve muito a essa rede social, o segundo endereço mais acessado da internet, perde apenas para o Google. Pesquisa anual da Hootsuite e We Are Social, afirma que em 2018 dos 4 bi com acesso à internet no mundo, 2 bi estão no Facebook. Sendo que até ano passado, o tempo gasto médio na rede social era de 50 minutos, muito se pensarmos que passamos entre seis e oito horas dormindo em um dia de 24 horas.

A importância também se deve por razões não tão positivas como a ascenção das fake news, as notícias falsas, e a tal bolha de internet, que devido ao algoritmo, privilegia o conteúdo de pessoas e empresas com quem interagimos, e, assim, nos fez acreditar que a eleição de Hillary era certa e o Brexit não aconteceria.

Da mesma forma, a criação de perfis falsos, que agora se sabe, fizeram parte da campanha de Dilma Roussef em 2010. Durante o período eleitoral, desenvolveram conteúdo para blogs que impulsionavam a imagem da candidata. A mesma estratégia foi utilizado por Aécio Neves, com o intuito de manipular a opinião pública.

Facebook também possibilitou os protestos de 2013, que convocaram por meio do agendamento de eventos, a população para ir às ruas contra o aumento da tarifa de transporte. Até então não se fazia ideia aqui no Brasil da força das redes sociais e seu poder de mobilização, que assustou os políticos e os levou a serem mais ativos nas mídias sociais. No ambiente internacional, vimos manifestações como a primavera árabe e o movimento Occupy nos EUA.

O que muda no nosso dia a dia?

Se pensarmos em uma esfera menor, mas ainda relevante, pergunto-me como ficarão os apps e outras redes online que usam como login a sincronização com o próprio Facebook, no caso do fim dessa mídia social, se é que acontecerá.

Ou em relação aos aniversários? Será que teremos de voltar a anotá-los na agenda? Sem contar com a rede de Zuckerberg para nos lembrar das datas que supostamente deveríamos saber. Isso sem falar nas fotos com marcação de pessoas, que motivaram o término de namoros e amizades, ao delatar a participação de nossas relações em eventos, ou em companhia de desafetos. A rede escancarou a falta de separação entre o privado e o público em nossas vidas.

É também pelo Facebook que entramos em contato com notícias e memes e os compartilhamos à profusão. Não apenas por acreditar em sua relevância, mas por que nos gera algum tipo de ganho de imagem ligar aquela informação a nós.

Mesmo em um só instante comunicar a uma grande audiência que se precisa de alguma informação e em instantes, receber a resposta. Assim como encontrar grupos de pessoas que compartilham dos mesmos interesses que os nossos, não que isso já não existisse em plataformas como o Orkut, mas o Facebook ampliou as possibilidades dessa inteligência coletiva, conforme conceituada por Pierre Lévy, que são possíveis no mundo virtual ao sugerir grupos e amizades a partir dos nossos hábitos, ações e preferências dentro de suas fronteiras.

Impacto no consumo

A rede é nossa embalagem, que apresenta ao mundo quem somos, ou gostaríamos de ser, e nossa capacidade de influência, ao mostrar nossa quantidade de amigos e seguidores de nosso conteúdo. Sim, tem mais essa: como ficará o mercado de influenciadores sem essa mídia? Como fazer chegar a tantas pessoas e em um só instante, de forma instantânea?

Por outro lado, proporcionou a nós publicitários a possibilidade de segmentar campanhas com precisão nunca vista antes, com dados como “pessoas que noivaram recentemente” ou “aniversariantes dos próximos dias”; mais do que isso, mensurar e monitorar a relação dos usuários com nossos anúncios de forma precisa. Clicou? Não clicou? Comprou? Deu like?

As estratégias de marketing ganharam como aliado os grandes volumes de dados que o sistema nos permite. Quem é nosso público? Quais são seus gostos e preferências? E dessa forma, cresceu também o branded content e o marketing de conteúdo, com a criação de conteúdo a partir desses insights. Dá-se à audiência exatamente o que lhe interessa para comprar ou interagir com as instituições, uma vez que as redes sociais, um advento da web 2.0, são um espaço de relacionamento entre pessoas, e pessoas e marcas (ou as marcas entre si, como no caso da prefeitura de Curitiba e a do Rio de Janeiro, quando propuseram casamento, por exemplo).

O big data possibilita predizer ações que são bastante prováveis de ocorrer. De maneira bastante próxima ao filme Minority Report, em que se prende alguém preventivamente, pois se sabe que no futuro aquele cidadão deverá cometer um crime). Tanto é que um pesquisador da USP mapeou as redes de relacionamento dos envolvidos em escândalos de corrupção brasileiro no período de 1984 e 2014, o que permitirá saber “qual a chance de alguém que sequer está sendo investigado fazer parte de algum novo esquema”, como pontuou o estudo. Ocorrências assim levam à afirmação de que no futuro as empresas saberão que o consumidor irá comprar antes mesmo que o indivíduo desconfie. Tudo isso baseado em suas ações, que são monitoradas pelas plataformas online. Um caso conhecido é da varejista Target dos EUA, que foi capaz de descobrir a gravidez de uma cliente antes mesmo que a própria soubesse, baseado tão somente na mudança de seus hábitos de compra.

É o fim?

E a debandada continua, outro jornal tradicional do mercado de propaganda, o Adnews, deixa o ambiente digital, onde nasceu, para voltar ao impresso. Decisão também motivada pelo combate a mais uma vez elas, as ditas fake news, “que parece ter transformada as redes sociais em ‘terra de ninguém’diante da pulverização de notícias com veracidade duvidosa e ausência de segurança nas fontes”, de acordo com a publicação.  Provavelmente, outros mais deixarão a rede, não apenas marcas, mas perfis pessoais.

Talvez estejamos acompanhando os últimos da rede social de Mark Zuckerberg e o fim do seu reinado, mas o certo é que não só ele cai; todos nós temos a perder com o encerramento dessa história, consumidores e publicitários. Afinal de contas, este é o mundo como nós o conhecemos até agora. Arrisco a dizer que o futuro não está nas mãos de Deus, e sim, nos dados que ele joga com o universo, que são capazes de predizer a próxima tendência.

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Mestranda da ESPM, é pós-graduada em Jornalismo e graduada em Propaganda e Marketing. É empreendedora à frente da agência digital Wonder Comunicação Estratégica, professora de escrita e marketing digital, e proprietária do canal de entrevistas em vídeo Gente de São Paulo.