Memorial do Consumo

Soida “Educação é um produto complexo, não tem como uma pessoa sozinha ter a resposta”

Ivan SoidaIvan Soida é formado em comunicação, fez mestrado em finanças e ensina estatística para alunos de publicidade e de ciências sociais e do consumo na ESPM. A sua formação é uma trajetória que poderia ir para o dicionário como definição de transdisciplinaridade: cursou alguns anos de medicina e de química enquanto iniciava sua carreira como professor de matemático no cursinho Poliedro. Optou por se formar em comunicação social/editoração e no mestrado investigou o desempenho de escolas públicas e particulares no ENEM. Hoje se divide entre o trabalho no cursinho e na ESPM, onde encara como missão ensinar aos alunos não só fórmulas e cálculos, mas principalmente a compreender o que os números estão dizendo. Conversamos com o Ivan sobre um tema espinhoso: a interface entre educação e consumo.

 

  1. A Escola respira o tema do consumo. Ao mesmo tempo, o setor de educação tende a se afastar desse assunto. Você fez carreira muito tempo, 10 anos, na educação antes de entrar na ESPM. Desde que você entrou aqui, mudou a sua forma a sua relação com o consumo?

 

Mudou. A ESPM encara essa questão de uma maneira muito única: ela olha com seriedade para esse tema. Acredito que a Escola conseguiu fazer uma fusão, de olhar o consumo como anúncio publicitário e também como uma questão do modelo econômico, a ponto de você ter um curso pesado de estatística para o curso de publicidade. Assim você sai do “número pelo número” x criação. Quando eu me deparei com isso, a minha cabeça abriu. O consumo tem muitas dimensões.

 

Para mim, a experiência também foi muito enriquecedora porque até então eu não estava no ensino formal. No cursinho você treina a pessoa para passar no vestibular, no ensino superior há um foco na formação da pessoa.

 

Sobre o meu próprio consumo, não mudou muito porque eu não sou o shopper da casa (risos). O que eu acho que mudou é que agora eu tenho menos preconceito com marcas menores, diminuiu o fetiche da marca.

 

  1. Você é o primeiro a ter contato com as novas gerações, que ainda estão entrando no mercado de trabalho. Você tem sentido alguma mudança na relação dos jovens em relação ao consumo e/ou ao mercado de trabalho?

 

Em relação ao consumo, acho que hoje se firmou uma questão dos valores das marcas, como valores éticos mesmo. As pessoas vêem valores nas marcas e as premiam em relação a isso. Acho que antes existia uma coisa mais difusa “tal marca é legal porque tem um programa de…” e essa pauta progressista acabou sendo apropriada pelas marcas, mas hoje os alunos não aceitam “um engajamento forçado”, como vimos no caso da Pepsi com a Kendal Jenner.

 

Em relação ao mercado de trabalho, eu vejo que mudou bastante. Hoje o que eu vejo é uma grande parte dos alunos se vendo como apta a fazer muitas coisas ao mesmo tempo e que isso é normal, faz parte da maneira como cresceram. E daí eles acham que estão captando muitas coisas ao mesmo tempo, mas estão captando de maneira superficial. Quando eu falo “Gente, agora vamos fazer atividade” muitos ficam “hã? O que é para fazer?” e daí têm que perguntar para o colega o que é para fazer. Então, eles acham que estão acompanhando, mas não estão. Eu vejo que esse “Me situa. Ah já entendi” faz com que eles acreditem que já entenderam, que estão aptos para fazer a tarefa, mas muitas vezes não estão. Acho que o grande desafio vai ser entender o que está acontecendo e interferir nesse processo para mostrar para eles que isso nem sempre funciona. O multitasking pode funcionar para tarefas superficiais, mas para outra atividades simplesmente não funciona.

 

  1. O digital tem a ver com isso?

 

Sim, acho que o digital é importante e vai acabar sendo incorporado no processo de aprendizagem. Mas ainda precisamos caminhar muito para fazer bem essa integração.

 

  1. Você tem alguma memória de anúncio ou produto da sua infância?

 

Ah claro, a minha geração passava horas na frente da TV. De vez em quando eu entro no Youtube e coloco “comerciais globo são paulo 1982” e fico assombrado do quanto eu lembro das coisas! Mas a minha lembrança mais legal é as das férias que eu passava com os meus primos, em casa. Naquela época o que a gente fazia era assistir TV junto e o que fazia com os meus primos era recriar os anúncios: a gente reproduzia as danças, os diálogos. Eu me divertia.

 

  1. Como se enxerga formando quem vai influenciar o consumo das famílias?

 

Acho que aí é uma reflexão sobre ser professor universitários. A minha disciplina é bem incomum na grade, né? Existia um discurso de que o número não entrava na criação, mas isso tem diminuído, hoje as pessoas percebem que não tem como deixar o número de fora. E o número é um critério, ele te ajuda a tomar uma decisão. A minha preocupação é muito menos ensinar a pessoa a fazer conta e muito mais habilitá-la para que ela consiga ver um relatório de resultados e entender o que está ali. Pode não ser especialista, mas não pode se intimidar. Acho que o meu desafio é esse: adaptar a pessoa à linguagem, para que ela possa usar os números a favor dela, para tomar melhores decisões.

 

Mas é mais do que isso: na minha cadeira, afinal não sou só eu que dou aula de estatística, a gente tem a preocupação de mostrar que número é método, é processo. Então, quando alguma coisa dá errado, você ser capaz de decompor o processo e entender o quê ou como aquele número apareceu. Se não deu certo, por que não deu certo? Será que testamos errado? Será que deixamos de considerar alguma coisa? Será que superestimamos um fator? Será que fizemos tudo certo, mas infelizmente caiu na margem de erro? No final das contas, queremos ensinar ciência, ensinar a pensar o processo. Para a pessoa acertar na próxima.

 

  1. Como você vê a relação entre consumo e educação tanto dentro de sala quanto como modelo de negócio?

 

Educação é um “produto” muito complexo porque ao mesmo tempo em que a pessoa está pagando por isso, não é a mesma coisa que pagar por um chocolate e querer satisfação total. Aliás, o que seria a satisfação total? Sair empregado? Então, como é muito complexo, não tem como ser pensado por uma pessoa só. Por isso tem muita gente dando sua contribuição, o professor, o coordenador do curso, não tem como uma pessoa só saber a resposta. Essa experiência tem sido muito interessante para mim porque é muito diferente do cursinho: no cursinho você tem um objetivo restrito, treina a pessoa e em 6 meses já feito. Nunca mais vê. No ensino superior você tá moldando a forma como aquela pessoa vai pensar, vai ver a própria profissão. Essa responsabilidade é enorme e por isso mesmo não tem como ser assumida por uma pessoa só.

 

SOBRE O AUTOR

é curiosa, adora viajar e perguntar o porquê das coisas. Se formou na ESPM e trabalhou em grandes agências. Hoje atua como redatora, pesquisadora e estrategista independente. É mestranda do PPGCOM-SP