Memorial do Consumo

O que é consumo na Venezuela

No último sábado (18), a fronteira do estado de Roraima se tornou palco do confronto entre brasileiros e imigrantes venezuelanos. O país vizinho tem vivido uma grave crise econômica, com uma inflação estimada a alcançar 1.000.000% (um milhão por cento) até o fim deste ano, segundo o FMI; para efeito de comparação, a hiperinflação brasileira chegou a 2.477% ao ano em seu pior momento.

Para escapar dessa crise, que tem motivado a escassez de remédios, racionamento de energia e fila nos supermercados para compra de produtos básicos, os venezuelanos têm se refugiado no Brasil. A tensão na área fronteiriça entre os povos das duas nacionalidades levou a um agravamento no sábado, após um assalto supostamente cometido por um venezuelano. Brasileiros fizeram um protesto com atos de violência e destruição de acampamentos dos imigrantes venezuelanos.

Consumo Venezuela

Foto de Kat Yukawa para o Unsplash

E como é viver na maior hiperinflação do mundo?

“Diferente da exacerbação da orgia consumista, o consumo deve ser entendido como o resultado de um conjunto de práticas sociais e culturais fortemente relacionados às subjetividades dos atores e ao grupo social ao qual pertencem”, descreve a professora Gisela Castro do PPGCOM. Ou seja, o consumo mostra quem nós somos, nossa cultura, status e hábito social.

Então como deve ser o consumo de um povo que vive sob uma hiperinflação? Afinal, como disse o teórico Garcia Canclini em 1996, “o consumo serve para pensar”.  Reportagem publicada hoje no Estado de S.Paulo mostra que são 7,5 bilhões de bolívares (moeda do país) para se comprar uma fatia de queijo. Um pacote de absorventes não sai por menos de 3,5 milhões de bolívares. Um quilo de arroz, 2,5 milhões de bolívares. Todas as fotos estão seguidas das notas de dinheiro empilhadas para que se tenha noção da pequena fortuna despendida para a compra de produtos compreendidos em uma simples cesta básica. Todos os valores aqui listados não chegam a sequer um dólar se feita a conversão.

Talvez a questão não seja o consumo, mas a falta dele. O presidente Nicolás Maduro acaba de elevar o salário mínimo para 180.000.000 bolívares (US$ 728 ou US$ 45,5) e cortará 5 zeros da moeda oficial nesta segunda-feira (20). Mesmo assim, desde 2016 tem havido uma fuga de profissionais para outros países. “Todo venezuelano com uma profissão universitária tem como projeto sair do país. O pior é que está incidindo nos que não terminaram os estudos. Muitos jovens emigraram antes de se formar, para buscar algum trabalho com melhor remuneração para apoiar suas famílias na Venezuela. Antes, os estudantes com melhores notas saíam para se especializar com pós-graduações no exterior. Os que emigram hoje buscam a subsistência“, conta Amalio Belmonte.

Causas da crise econômica venezuelana

Queda no valor do barril de petróleo, que caiu de 120 dólares em 2008 para menos de 50 dólares a partir de 2014, e é responsável por 96% das exportações; o controle do Estado sobre o câmbio, adotado desde 2003 com o objetivo inicial de impedir a fuga de dólares do país e controlar a inflação, o que também desestruturou a economia; e, por fim, a tensão entre governo e oposição, a polarização política no país tem produzido efeitos na economia, e na vida dos cidadãos.

“Não nego o vazio que sinto, mas desde janeiro em minha casa comemos mais, graças às remessas que meus filhos enviam. Eles trabalham em um cibercafé em Buenos Aires”, explica María Sonia Ramírez Estrada na mesma reportagem. “Por um lado, se comprávamos carne, devíamos prescindir do frango, apesar de três integrantes da família termos renda. E houve muitos dias em que quisemos sair correndo dali. Cada dia crescia a angústia de que entrariam em nossa casa para roubar”, conta outra venezuelana, Génesis Yovine Pineda.

O consumo pode estar relacionado com nossos afetos, mobilizar diferentes subjetividades, ligar-se ao pertencimento a um grupo ou classe social, mas quando se trata tão somente de comida, talvez não seja correto vê-lo pelo viés do consumo, mas como uma tática de sobrevivência.

Fonte: CASTRO, Gisela. Comunicação e consumo nas dinâmicas culturais do mundo globalizado. pragMATIZES – Revista Latino Americana de Estudos em Cultura, Ano 4, n. 6, Rio de Janeiro, março 2014, p. 58-71.

SOBRE O AUTOR

Mestranda da ESPM, é pós-graduada em Jornalismo e graduada em Propaganda e Marketing. É empreendedora à frente da agência digital Wonder Comunicação Estratégica, professora de escrita e marketing digital, e proprietária do canal de entrevistas em vídeo Gente de São Paulo.