Memorial do Consumo

Por um novo nome para as Redes Sociais

Na peça Romeu e Julieta, Shakespeare dedica um ato inteiro à reflexão sobre a força de um nome. No marketing, toda uma técnica foi desenvolvida para a criação de nomes para marcas e produtos – o naming. Na lei e nos costumes, de tempos em tempos, um novo conjunto de palavras emerge como corretas ou censuráveis. Na psicanálise, um problema sério consiste em não conseguir nomear algo, geralmente tratado como trauma.

Seja na empiria, seja na teoria, encontramos um sem número de exemplos que indicam a importância de nomear coisas, pessoas, ideias, sentimentos. Nomes contam.

No mundo científico, uma simples palavra pode representar muito. Palavras, por vezes, equivalem a uma coordenada de GPS, definindo onde um determinado estudo ou um estudioso se situa. Usar esse ou aquele verbete, mais do que uma escolha entre aparentes sinônimos, é fincar bandeira em um território conceitual.

Na comunicação, um caso clássico são os termos Cultura de Massa X Indústria Cultural. Os estudiosos da Escola Crítica de Frankfurt travaram toda uma luta científica e política com base na proposição do conceito de Indústria Cultural. O termo, segundo eles, deveria substituir Cultura de Massa (ou mass media) a fim exprimir que não se trataria meramente de uma espécie de cultura popular emanada organicamente as massas, dando luz à existência de atores, estruturas e interesses relacionados ao que ele entenderam como uma indústria. Assim, mesmo fora do circuito frankfurtiano, nota-se certo cuidado a fim de que ambas as expressões não sejam utilizadas inadvertidamente como totais equivalentes.

Mas o que esse exemplo tem a ver com o título desse post?
É que essas duas palavrinhas, Redes Sociais – possivelmente tão celebradas hoje como o Mass Media foi um dia -, talvez despertem inquietações semelhantes. Seriam as redes sociais apenas social media? Tal nomenclatura não desconsideraria outros aspectos além do social, como suas relações com a publicidade, os negócios, a ideologia?

Nas redes sociais, nos pomos em contato com uma rede de conhecidos. Mas… é só? O crescente interesse em marketing, dados, privacidade e segurança digital denunciam que o ciberespaço passou a desempenhar papéis consideravelmente expandidos. Fale lembrar que o ponto de partida do Facebook foi algo como um álbum escolar eletrônico para os discentes de Harvard.

Considerando esses fatores, Gisela Granjeiro da Silva Castro, pós-doutora docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Consumo (PPGCOM) da ESPM-SP, tem esboçado em seus estudos o termo Rede Digitais de Sociabilidade, Comunicação e Negócios. Comprido? Sim, mas fica a provocação sobre que termos melhor poderiam captar a essência do que se estabeleceu vulgarmente como social media.

 

SOBRE O AUTOR

Rosa Fonseca é publicitária e mestranda no PPGCOM da ESPM-SP.