Memorial do Consumo

Observações e Relatos numa feira de Orgânicos

Os pesquisadores Solon Bevilacqua, professor doutor da Universidade Federal de Goiás, e Leidiana Miguel de Rezende, pós graduanda em Gestão Financeira e Controladoria, também da UFG, têm estudado o consumo de produtos orgânicos. Abaixo, um texto fornecido pelos autores sobre suas pesquisas:

O passeio feito na feira de produtos orgânicos de seu bairro pode transformar-se numa experiência muito rica. O produto orgânico já nasce com problemas relacionado a um grande vazio existencial. Primeiramente, para que seja orgânico em sua essência, deve ter sido desenvolvido com uma água livre de poluentes; deve ser sido cultivado longe de herbicidas que viajam com o vento e, principalmente, que tenha sido adubado com produtos também orgânicos (lembre-se que até o esterco utilizado como adubo deve ter essência orgânica – e, dependendo da matéria prima a ração animal não é orgânica). Bem, depois do exposto, vamos falar um pouco da nossa ida à feira.

A feira do bairro reúne produtores, vendedores e consumidores, das mais distintas origens e culturas. Uma verdadeira miscelânea de origens. É muito comum encontrar tribos de consumidores orgânicos convictos, consumidores esporádicos e aventureiros no ramo do consumo verde. A observação e as anotações no diário de campo são fundamentais para coletar vozes e imagens. Após os dados estarem no diário, com certeza teremos um belo retrato da feira. O próximo passo é transcrição, codificação e análise de conteúdo. Um promissor trabalho de etnografia urbana.

– Não há um centímetro dessa folha sem furos. Se comprasse por peso sairia quase de graça.

– Como assim? Se eu não encontrasse o que vim aqui buscar? Certamente iria ao Supermercado e lá compraria o mesmo produto e talvez até mais barato…

– E essa cenoura desse tamanho?

Relatos como esse são comuns numa feira verde. Inclusive fazem parte de nosso diário de campo elaborado em 3 feiras de produtos naturais, no sudeste goiano. Na verdade, as pessoas ainda não compraram em profusão a ideia do produto orgânico. Antes de mais nada, trata-se de um estilo de vida, um hábito de consumo ou ainda uma experiência que demanda muita disciplina. Estamos falando também de um bolso preparado, pois os produtos verdes são mais caros do que os produtos ‘nada verdes’.

A boa notícia é que comunidades de famílias estão recebendo instrução de universidades para concentrar valor nos “produtos verdes”. Estamos falando de selos de origem e de qualidade; desenvolvimento de técnicas e principalmente estratégias comerciais. Tais aspectos também surgiram em nosso estudo, quando os produtores foram entrevistados. Tais práticas conferem ganhos importantes para toda a cadeia produtiva. O freguês também sai ganhando.

SOBRE O AUTOR

é bacharel em Comunicação Social e mestrando em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM, além de ser apaixonado por tecnologia, jogos, filmes e tudo que envolva o universo nerd.