Memorial do Consumo

Você sabia que a questão dos dados pessoais no Facebook é uma discussão de 1890?

De um lado, a proposta “abra mão da privacidade de alguns dados e te daremos serviços personalizados totalmente de graça”. A troca parece vantajosa, afinal quem não deve não teme.

 

Em artigo para revista da COMPÓS, o professor doutor do PPGCOM-ESPM, Luiz Peres-Neto, investigou essa questão dos dados sob a ótica da comunicação e do consumo. Para tal ele foi a fundo na história da privacidade no ocidente, uma história surpreendentemente curta.

 

A breve história da privacidade é surpreendentemente marcada por colunas sociais que pretendiam impor novos costumes e a busca de um poderoso senador para manter sua vida de luxo fora da crítica pública. O conceito de privacidade, revela a pesquisa, está intimamente ligada ao desenvolvimento da sociedade de consumo que vivemos hoje e foi fundamental para a consolidação da sociedade americana. Esses fatos tornam a questão dos dados do Facebook um enorme paradoxo: hoje é a diluição do conceito de privacidade que move uma das dez empresas mais valiosas do mundo.

 

O texto também aponta, contra a nossa intuição, a ligação direta entre o conceito de privacidade – de esfera íntima pessoal – e o conceito de transparência e accountability, de prestação de contas e governança que vimos florescer nas últimas décadas. Mais surpreendentemente ainda, a diluição do conceito de privacidade pode estar diretamente ligada ao enfraquecimento do mundo público.

 

Apesar de se tratar de um artigo acadêmico, voltado a outros pesquisadores, a estrutura do texto é bastante fluída e didática, sendo um ótimo ponto de partida tanto para quem gostaria de pensar melhor essa confusão que estamos acompanhando do Facebook quanto para quem gostaria de se aproximar de uma definição mais nítida de certos termos em voga, como “cultura do consumo” e “capitalismo tardio”.

 

O texto é de 2015, mas se conecta até com os últimos acontecimentos, como a fala do Ministro Carlos Marun, sugerindo que as pessoas que não promoviam o Museu Nacional não podem afirmar que o consideravam importante – uma confusão total entre interesses público e privados. Especificamente para o momento em que vivemos agora, setembro de 2018, há um trecho nas páginas 8 e 9 há um trecho especialmente importante:

 

“A existência de fronteiras entre as esferas pública e privada da vida social, como bem recordam Weber e Baldissera (2008, p.18) permite “identificar limites e convergências entre ações e movimentos específicos ao Estado, ao interesse público, e os outros decorrentes do interesse privado e de ações com objetivos e resultados obtidos em benefício particular”. Precisamente por isso, a diluição, mescla ou sobreposição dos interesses privados e públicos, a existência de trânsitos nem sempre claros entre tais esferas da vida social favorece o que Camps (2011) denomina como “clamor pela ética”, por valores morais absolutos, como se os mesmos por si só seriam capazes de assegurar aos cidadãos a vida boa em uma polis cada vez mais complexa.”

 

De volta ao ponto central do texto, a privacidade, o autor analisa uma questão que todos nós já fizemos: “como podem me dizer que tenho a opção de proteger meus dados ao simplesmente não participar do Facebook? Sou muito fútil por acreditar que me retirar das redes sociais não é uma opção?” Essas duas questões são exploradas no artigo, que combina faz uma articulação entre comunicação, consumo e ética para nos aprofundar nessa questão.

 

Você pode ler o texto completo “Ética, comunicação e consumo: apontamentos a partir do estudo da privacidade” aqui.

SOBRE O AUTOR

é curiosa, adora viajar e perguntar o porquê das coisas. Se formou na ESPM e trabalhou em grandes agências. Hoje atua como redatora, pesquisadora e estrategista independente. É mestranda do PPGCOM-SP