Memorial do Consumo

Drable “Ainda vivemos um ambiente em que parece que ‘aguentar o ritmo’ é condição inegociável para se trabalhar com comunicação.”

Pedro DrablePedro é publicitário à moda antiga: desde pequeno é apaixonado pelas histórias e pelo formato publicitário, demonstrando um verdadeiro encanto com clássicos da propaganda. Trabalhou como redator desde seu primeiro estágio e, mesmo tendo um futuro promissor nas agências, decidiu migrar para uma empresa de conteúdo em vídeo, a Massiv. A Massiv é a dona de sites populares como Tudo Gostoso e Adoro Cinema. Seu modelo funciona tanto com a criação de conteúdo de marca para esses canais quanto como gerenciando canais proprietários para as marcas, como fazem para clientes com clientes como Leroy Merlin e Maybeline. Conversamos com Pedro sobre comunicação, memória e mercado de trabalho.

 

Mudou a sua relação com marcas e produtos desde que você começou a trabalhar com comunicação e consumo?

A minha relação com a publicidade é anterior ao meu trabalho como publicitário. Desde criança eu me interesso pela forma e pelos conteúdos dos anúncios, eu sempre curti. Mas desde que eu comecei a trabalhar com isso realmente mudou um pouco: eu comecei a conhecer melhor os códigos e as estratégias de persuasão então a minha relação com marcas passou a ficar mais profunda e também mais cética. Por um lado eu respeito mais as marcas que fazem trabalhos bem feitos e por outro eu pesquiso mais antes de acreditar no que uma marca está me dizendo.

 

Você tem alguma memória de anúncio ou produto da sua infância?

Nossa, tenho dezenas! Eu amava a formiguinha da Philco, lembro de muitos jingles – como o de Natal da Coca-Cola, do Babbaloo, do shampoo Johnson Baby . Tenho memória também das últimas campanhas de cigarro como o Free Jazz Festival e o Hollywood Rock. Nossa, eu lembro de dezenas.

 

Como se enxerga influenciando o consumo das famílias?

Eu acho que o consumo é indissociável da nossa sociedade de hoje. O consumo em si não é um problema, mas isso não quer dizer que eu lavo as minhas mãos. A grande questão é como lidamos com o consumo. Eu trabalhei com cigarro e já existia toda uma regulamentação sobre essa indústria, tem impõe restrições às estratégias usadas e onde você não pode fazer absolutamente nada sem avisar que aquilo faz mal.

 

Eu acho que os sistemas de controle são muito importantes e válidos e a questão é termos essas discussões sobre o que é honesto ou não, o que prejudicial ou não. Acho que caminhamos muito e para um lugar melhor. E também acredito que vamos continuar caminhando nesse sentido então não me sinto mau influenciando o consumo das famílias.   

 

Você trabalhava em agência, onde as imagens e os textos tinham eram custos e tinham como objetivo estimular diretamente a pessoa a ir consumir um produto. Agora você trabalha em uma plataforma de conteúdo, onde as imagens e os textos são um produto em si. Como isso afetou o seu trabalho?

Tem um pessoal das antigas que diz que a boa propaganda sempre funcionou e sempre vai funcionar. Eu vejo esse discurso vindo de pessoas que ainda estão agarradas ao modelo tradicional e que têm resistência de migrar para as agências de conteúdo ou que tenham uma estrutura mais condizente com o nosso tempo. O que eu acho curioso é que para mim é o contrário: boa propaganda sempre foi o conteúdo. Boa propaganda sempre trouxe algo que era adicional à mensagem publicitária. É claro, muito bem alinhada com a mensagem publicitária, mas a boa propaganda sempre gerou uma experiência de algo além, geralmente entretenimento: uma boa história, algo bem filmado, que dá prazer em ver, que seja culturalmente engrandecedor. Essa boa propaganda para mim é nada mais do que conteúdo em 30 segundos.

 

Para mim o que mudou é que agora tenho mais oportunidade de ouvir o que as pessoas querem realmente consumidor e daí trazer uma marca para dentro desse universo de uma maneira mais orgânica e mais humana. Então eu sinto que o meu trabalho se tornou um pouco mais verdadeiro do que quando eu tentava construir uma mensagem publicitária e daí, por cima desse mensagem, tentar trazer algo a mais. Eu acho que agora trabalho com um formato que é mais generoso com o consumidor e isso ajuda até na relação delas com as marcas: elas também se tornam mais generosas com quem está lhes trazendo todo um universo de entretenimento e informação para elas.

 

Você é casado com uma pessoa que saiu das agências para fazer direito e trabalhar no funcionalismo público. E atualmente vemos o mercado repensando a maneira de se trabalhar. Você aprendeu alguma coisa vivendo em casa com esse contraste nas formas de se encarar o trabalho?

Eu aprendi demais. Eu sempre admirei muito a minha esposa, ela é uma profissional e uma pessoa sensacional e parece que o mercado não pesa isso. Ainda vivemos um ambiente em que parece que “aguentar o ritmo” é condição inegociável para se trabalhar com comunicação e não precisa ser assim. O que vemos dentro das agências é uma comunidade de pessoas estressadas e medicadas – esse ritmo não está fazendo bem para ninguém. Eu acho muito curioso o nosso mercado ser assim porque no fim do dia, quando você olha para o nosso trabalho você vê que a pior coisa que pode acontecer é você mesmo ser demitido: ninguém vai morrer, ninguém vai perder a casa, ninguém vai preso. Então eu acho muito estranho que um mercado como esse tenha um grau de stress tão grande.

 

Eu acho que a gente deveria lembrar com mais frequência que o trabalho que realizamos tem um aspecto lúdico muito forte e que por isso mesmo deveria ser mais tranquilo. Eu acho que foi o próprio mercado que criou essa noção de emergência como uma forma de colocar como mais importante, mas isso está fazendo mal a muita gente. Trabalhar com comunicação pode ser incrível e muito importante para você, mas existe um mundo de coisas lá fora. Estar casado com uma mulher que gostava do que fazia e que era boa, mas que percebia que o ambiente não eram benéficos para a saúde dela me faz lembrar disso todo dia. Quando eu viajo a trabalho eu vejo que rapidamente volto aos meus maus-hábitos de antigamente: querer trabalhar 15 horas, dormir mal, essas coisas. Mas quando eu volto ao Rio a presença da minha esposa e da minha cachorra me lembram que não precisa ser assim. No final, o meu casamento me salvou de ser uma pessoa que eu não gostaria de ser.

 

Lembra da formiguinha da Phillips? Você pode rever clicando aqui.

SOBRE O AUTOR

é curiosa, adora viajar e perguntar o porquê das coisas. Se formou na ESPM e trabalhou em grandes agências. Hoje atua como redatora, pesquisadora e estrategista independente. É mestranda do PPGCOM-SP