Memorial do Consumo

“Plutarco dizia que nos sentamos à mesa não para comer, mas para comermos juntos. O comer fortalece os vínculos familiares.”

Fernanda Martinelli UnB
Mesa do Comunicon 2018

Fernanda Martinelli, docente e pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), explica o quanto o consumo de alimentos não é apenas uma questão fisiológica, mas vai bem mais além, ganhando um sentido cultural também relacionado às questões de identidade, urbano e mesmo a visão cosmopolita. “Plutarco dizia que nos sentamos à mesa não para comer, mas para comermos juntos. O comer fortalece os vínculos familiares. Maffesoli defende que há toda uma ritualização das refeições que extrapola a mesa. O que é apto ou não entrar no processo alimentar tem fundo religioso”, explica.

Fernanda Martinelli da UnB
Fernanda Martinelli, da UnB

É com essa fala de entrada que a pesquisadora nos leva para seu campo de estudo. Martinelli se dedicou à área de Moda em seu Mestrado e Doutorado, e hoje se serve da Alimentação. Em um bate-papo saboroso com o Memorial do Consumo, nos contou sua receita, ops, não, suas descobertas, durante o Comunicon 2018, quando participou da mesa Comunicação, consumos e políticas sobre a alteridade, realizada no dia 09 de outubro.

“A recusa em não consumir a carne de alguns animais é culturalmente definida. Como não aceitar comer carne de cachorro, por exemplo. É a terra do cão sagrado, em comparação com a vaca sagrada na Índia. Afinal, o cão é o melhor amigo do homem então vira tabu seu alimento”, explica a pesquisadora. “Por outro lado, o traquejo do garfo e da faca corporificam como se portar à mesa. É um sinal de boas maneiras, saber usar faz parte do processo civilizador no ocidente. Garfo e faca são armas, mas a violência deve ficar fora da mesa.” Ao contrário do homem medieval, que segundo ela, comia com as mãos e compartilhavam do mesmo copo e prato. Interessante que não se tratava de uma interdição colocar a boca onde o outro colocou, como é nos dias atuais.

Etnografia que alimenta

A professora propõe uma tentativa de pensar a culinária como metodologia, como uma etnografia específica, que permitisse passar por todos os passos da cadeia alimentar. Vê a cozinha como uma espécie de feitiçaria, de transformação química e alquímica, uma espécie de comunicação não intencional, que distingue da empatia.

Coloca à mesa também a possibilidade da culinária como metodologia da produção de afeto. Afinal, em suas palavras, o termo “restaurante” exprime uma relação de restauração pelo alimento, pelo efeito do alimento e como ele afeta os sujeitos. “Comida é uma palavra que não está no tempo presente. Ela é o que já foi. Há uma distinção entre alimento e comida. Nem todo alimento é comida. Alimento é um produto da natureza. Alimento se transforma em comida, quando se insere numa rede de comunicações e representações culturais”, desenvolve a professora, para depois lembrar das comidas típicas, regionais e mesmo a cozinha étnica. Ser local para ser global, e mesmo a recontextualização de pratos clássicos ou estrangeiros com produtos locais. “A cultura global necessita da diferença para prosperar, dizia Hall”, lembra.

E cita como exemplo o icônico filme “A Festa de Babette”. Em sua opinião, a película dinamarquesa de 1987 ilustra bem a relação entre comida e afetos, em uma sociedade “onde a religião é o centro da vida social. Há puritanismo e austeridade nos modos de vida, vestir e se alimentar. Babette é uma refugiada francesa. Duas irmãs filhas do pastor, já falecido a acolhem. Então há a introdução de novas sensações, do prazer e da diversificação do comer. Antes era só pão, peixe e cerveja. Ela [Babette] ganha na loteria e oferece um banquete para as irmãs e os moradores da vila, que então aprendem a perder o pudor em sentir prazer com o que se come e se bebe. Babette apresenta o mundo pela comida àquelas pessoas. O que encontra um correspondente contemporâneo nos programas que mostram novos lugares em viagens”, exemplifica.

Da mesa à academia

“A descoberta do fogo permitiu a cocção dos alimentos, do cru para o cozido. Há a partilha nas refeições, que também permite outras partilhas. É o biológico num corpo simbólico. É o poder transformador da cultura. O cozer também faz a cerâmica, os utensílios necessários ao consumo dos alimentos. A comensalidade também tem uma função social das refeições. Conviver à mesa vem do latim: ‘comensal’. Comer é um fator estruturante. Todos os rituais que cercam o alimento. A mesa tem uma função pacificadora. Jantares cerimoniais e protocolares dos chefes de Estado, com a distribuição dos lugares. Qual tipo de comida deve ser servido, em qual ordem e para quem. Tem a ver com a nossa estrutura cotidiana para além da vida”, enfatiza Martinelli sobre a importância desse campo de estudo.

A docente alerta ainda que estamos em um momento crítico. A política alimentar em sua opinião deve ser pensada para mais do que uma questão de segurança nutricional, uma vez que se trata de traço cultural e constitutivo da identidade, ou seja, a única preocupação não deve ser apenas combater a fome, é uma questão de dignidade humana e por que não, cidadania.

 “A reflexão sobre o alimento expande os horizontes da comunicação e traz uma centralidade para as visões de mundo, o que possibilita pensar essa produção da cultura como linguagem”, comenta ao explicar que seus resultados ainda são muito preliminares, pois ainda não saiu a campo, o que deveria acontecer agora no segundo semestre do ano. Um estudo saído do forno será delicioso de degustar.

SOBRE O AUTOR

Mestranda da ESPM, é pós-graduada em Jornalismo e graduada em Propaganda e Marketing. É empreendedora à frente da agência digital Wonder Comunicação Estratégica, professora de escrita e marketing digital, e proprietária do canal de entrevistas em vídeo Gente de São Paulo.