Memorial do Consumo

Pedro Thompson Motta “A verdade é que a publicidade dança de acordo com o dinheiro do cliente.“

Pedro Thompson Motta, Global Manager na NetflixPedro Thompson Motta é Global Manager na Netflix. Ele é designer, mas logo cedo se enveredou para o mundo da estratégia de comunicação. Seu primeiro emprego foi na Tátil, agência de design e branding, o que acabou sendo responsável por essa ponte entre a sua formação e a sua atuação. Conversamos com Pedro sobre trabalho dentro da agências de publicidade visto por alguém que já foi de dentro, mas teve um olhar de fora:

 

Mudou a sua relação com marcas e produtos desde que você começou a trabalhar com comunicação e consumo?

Mudou sim, com certeza. Você passa a ficar mais cínico diante das promessas das marcas. Você cria um olhar mais analítico e consegue entender quando a mensagem é vazia ou quando de fato traduz o que aquele produto ou serviço é fato. Então eu diria que a minha relação ficou mais clara, na verdade.

 

Você tem alguma memória de anúncio ou produto da sua infância?

Sim, lembro muito bem da pasta de dente Tandy na versão Pump, que era uma embalagem diferente, que fica em pé. Eu lembro que aquilo me seduziu e a hora de escovar os dentes virou uma coisa prazerosa porque eu gostava de usar aquele formato diferente. Outra propaganda que eu lembro muito era a da Babaloo Banana. Aliás, é uma pena que se perdeu um pouco o jingle, quem é das gerações anteriores sabe o poder que ele tem.

 

Como se enxerga influenciando o consumo das famílias?

Nesses 12 anos trabalhando com publicidade eu nunca deixei de me perguntar “será que essa pessoa realmente precisa de um celular novo?” “será que nessa sociedade hiper-consumista eu estou tendo um papel maléfico?”. Acho que essa é uma dúvida que todo publicitário tem. A verdade é que a publicidade dança de acordo com o dinheiro do cliente, então não tem como associar a publicidade a uma influência necessariamente negativa ou positiva. É o livre mercado. Então, essa é uma questão que me acompanha e não tenho uma resposta fixa, é uma pergunta existencial para mim.

 

Você trabalhava em agência, onde as imagens e os textos tinham como objetivo estimular a pessoa a ir consumir um produto. Agora, você trabalha em uma plataforma de conteúdo, onde as imagens e os textos são o produto. Como isso afetou o seu trabalho?

Nos últimos 6 anos eu trabalhei muito com digital, então eu já trabalhava de uma maneira diferente, sem um foco no estímulo direto ao consumo. A publicidade foi se tornando parte da experiência de marca – não é mais só o “compre batom”, o que me fez trabalhar com conteúdo para marcas. Na Netflix o conteúdo é de fato o produto em si e isso é realmente diferente. Porém, quando estamos falandos das produções próprias o conteúdo é também uma experiência de marca – experiência com a marca Netflix – e aí temos uma semelhança com o meu antigo trabalho.

 

Você atualmente trabalha numa plataforma de conteúdo, um lugar para onde as agências estão olhando. O que tem aí que você gostaria de ver as agências absorvendo?

Eu sou designer e caí de paraquedas na publicidade então uma coisa que me assusta muito é essa hierarquia quase militar. Você vai nessas startups isso simplesmente não existe. As equipes são super horizontais, o que dá não só liberdade, mas muito mais responsabilidade à equipe. A publicidade vende essa imagem descolada, mas é uma hierarquia quase de exército mesmo. Eu acho que esse paradoxo interfere muito no produto criativo.

 

Outro ponto que acredito que seja urgente é a questão da diversidade. Nas agências que eu trabalhei as lideranças eram formadas praticamente só por homens brancos. O espaço da mulher não está como deveria ser. Cansei de ver mulheres não tendo um décimo do reconhecimento que deveriam ter. E isso é pavoroso. Trabalhando agora em uma estrutura que tem um RH que funciona, que tem um pensamento de construção de carreira, que tem um pensamento para a diversidade e para a inclusão você que essas coisas não precisam existir. Eu mesmo já fui vítima de preconceito nesse ambiente que teoricamente é super descolado e moderno.

 

Por último, o trabalho flexível. Você vê Unilever, Natura, Google, Netflix todos oferecendo flexibilização de horário e o que conta é a sua entrega. Esse pensamento ainda não foi absorvido pelas agências. Não tem a opção de você ser responsável pela sua entrega e acho que essa falta de responsabilidade própria atrapalha mais do que ajuda na entrega final.

 

Lembra do Tandy Pump? Confira o comercial dele aqui. E que “Nada é mais gostoso que um Babbaloo banana, o chiclé cheio de sabor”? Relembre aqui.

SOBRE O AUTOR

é curiosa, adora viajar e perguntar o porquê das coisas. Se formou na ESPM e trabalhou em grandes agências. Hoje atua como redatora, pesquisadora e estrategista independente. É mestranda do PPGCOM-SP