Memorial do Consumo

Luca Caruso, 24 anos, publicitário

Lembro-me de quando tive um momento nostálgico da minha vida.

Recentemente lá estava eu na minha casa de praia, me divertindo durante um mero fim de semana. Eis que me deparo com meus amigos acendendo um cigarro num suporte de vela feito porcelana, de cerca de 7cm, com formato de banheira, que ficava no lavabo daquele meu apartamento.

Pode ter parecido uma simples forma de acender um cigarro sob improviso, porém aquela visão me trouxe a uma profunda reflexão. Aquela banheirinha certamente marcou uma fase da minha infância.

Por volta de uns 5 ou 6 anos, meus pais se divorciaram. Minha vida mudou de forma brusca, pois novas regram vinham à tona. Fim de semanas repartidos, pertences divididos em casas diferentes, novas regras e metodologias divergentes na minha educação… Foi uma época confusa e que eu sentia que nada estava ao meu controle, pois sentia que a qualquer momento regras podiam mudar na minha vida, acompanhada de pressões, medos, angústias. Eu simplesmente tinha que aceitar todo aquele contexto sem nenhum questionamento.

Numa pacata (e recém “nova moradia”) casa do meu pai, toda vez que eu tomava banho naquele chuveiro estranho e sem familiaridade, eu avistava aquela tal banheirinha, provavelmente comprada em uma loja de decoração de beira de avenida, usada para decorar a então nova casa do meu pai daquele ano.

Por algum motivo essa banheirinha não foi descartada por ele, reaparecendo na minha jornada de vida muitos anos depois, e sob num contexto curioso: na minha casa de praia, com meus amigos, e ainda no mês de comemoração do meu aniversário!

Aquilo foi simbólico pois representou uma libertação, uma quebra de paradigmas e obstáculos mentais que eu carregava desde a infância. Aquela mísera banheirinha de porcelana, que representava tanto associações a regras, burocracias, tradicionalismos… De repente virara um acendedor de cigarros, ao qual aparentava não ser sua função principal, e ainda sob um evento de minha iniciativa.

Foi como um tabu quebrado, uma alta sensação de autoestima e de que sou forte e confiante sobre minha vida e as minhas decisões nela. Novamente pude reparar que estou sob controle dela e sempre pronto pra questionar o que não se alinha aos meus pensamentos e valores mais profundos, e que principalmente sinto orgulho.

SOBRE O AUTOR

é bacharel em Comunicação Social e mestrando em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM, além de ser apaixonado por tecnologia, jogos, filmes e tudo que envolva o universo nerd.