Memorial do Consumo

Consumo do discurso de ódio motivado por questões de gênero

Foto: T. Chick McClure
Foto: T. Chick McClure

Gabriela Pereira foi aluna do PPGCOM da ESPM e defendeu agora em 2019 sua dissertação de mestrado intitulada “Gênero, ética e discurso: produção, circulação e consumo do discurso de ódio motivado por questões de gênero em sites de redes sociais”.

“O processo de fazer um mestrado foi intenso. Repleto de amadurecimento e conhecimento. Não foi fácil fazer uma pesquisa como essa, mas também não poderia ter feito outra. O tema tem uma relevância social muito grande e precisa ser cada vez mais discutido”, assim justifica a importância de sua pesquisa.

O foco da investigação foram os discursos odiosos direcionados a mulheres, homossexuais, transexuais, travestis, bissexuais etc. “As pessoas presentes nos sites de redes sociais têm a possibilidade não só de consumir, mas de produzir, reproduzir, compartilhar e divulgar conteúdos relacionados a praticamente qualquer tema, de maneira muito rápida e com um alcance muitas vezes imensurável. Dessa maneira, de acordo com o tipo de conteúdo produzido e consumido, esses sites podem tanto ser um espaço de transformação, que dá voz e visibilidade para pautas e pessoas que não o teriam fora daquele ambiente, quanto um espaço que reforça ideias hegemônicas, conservadoras e discriminatórias”, explica a mestra, complementando que o estudo buscou compreender como o preconceito e o machismo, já presentes na sociedade, são manifestados nesses espaços digitais e qual a permissividade desse fenômeno.

Bases

“Diversas discussões e reflexões foram basilares para este trabalho e duas questões nos guiaram durante o processo de pesquisa: 1) Como surgem os discursos de ódio de gênero em sites de redes sociais e; 2) Quais as causas e consequências éticas desse fenômeno para o reconhecimento da pluralidade e diversidade de gênero?”, argumenta a pesquisadora.

Sendo que o objetivo principal da pesquisa foi a investigação da naturalização dos discursos de ódio de gênero nos sites de redes sociais. Para tanto, fez-se necessário entender o que é o discurso de ódio, como se dá a produção, circulação e o consumo desse tipo de discurso nos sites de redes sociais, e quais são os limites entre a liberdade de expressão e a defesa dos valores democráticos. Também foi de extrema importância analisar se os sites de redes sociais, como um dos mediadores desse discurso, se responsabilizam de alguma maneira pelo conteúdo violento presente nesses espaços.

Recuero (2014) afirma que, nos sites de redes sociais, o discurso de ódio pode encontrar ressonância e, assim, é legitimado por outros grupos por meio de apoio, curtidas e compartilhamentos. Dessa maneira, a importância de discutir de que forma uma plataforma comunicacional pode influenciar e contribuir para a reafirmação de preconceitos em uma escala muitas vezes imensurável é evidente, na medida em que trabalhamos para a manutenção de uma sociedade democrática”, relata ainda.

Resultados

“Foi possível observar na pesquisa que os discursos de ódio de gênero nos sites de redes sociais são de fato discursos naturalizados e percebidos como simples ‘opiniões’ e não como formas de preconceito e discriminação”, está entre os seus achados. Lembrou que as discriminações de gênero históricas na sociedade contribuem de maneira muito significativa para que esses discursos sejam naturalizados, o que é explicado por Bourdieu (1998) por meio do conceito de poder simbólico. Assim, os preconceitos são passados de geração em geração e são dados como algo natural, o que faz com que as pessoas não questionem os motivos que as levam a pensar de determinada maneira ou ter determinada opinião. Não há a consciência de que o machismo, homofobia e transfobia, por exemplo, sejam construções sociais e, como toda construção, podem então ser desconstruídos e questionados.

“Também foi possível observar que os sites de redes sociais pesquisados contribuem para que esses discursos sejam manifestados em suas plataformas; visto que, apesar de terem políticas e padrões que afirmam não tolerar o discurso de ódio, eles entendem como discursos odiosos apenas aqueles que incitam o ódio ou a violência e ainda afirmam que, o que pode ser considerado ofensivo para uma pessoa, pode não ser para outra, e, nesses casos, esses discursos são tolerados”, delineia assim a questão.

“Além disso, os cálculos algorítmicos presentes nesses sites contribuem para a formação de bolhas sociais e uma ilusão de maioria, o que é prejudicial à medida em que um sujeito, ao ver apenas conteúdos com os quais concorda, não questiona suas opiniões e tem a falsa ideia de que o que pensa é uma verdade absoluta. Os sites de redes sociais não se responsabilizam de maneira alguma em relação ao conteúdo que circula em suas plataformas e criam medidas contra o discurso de ódio. Isso abre brechas para que esses discursos existam livremente, gerando uma permissividade para o preconceito e a discriminação, que é um desserviço civilizatório, pois prejudica, invisibiliza e não reconhece sujeitos que fazem parte de grupos politicamente minoritários”, resume.

“Foi um desafio pessoal pesquisar um tema que me toca tanto, como a discussão das questões de gênero. Como mulher, não foi fácil observar e analisar milhares de comentários de ódio contra mulheres e tudo que é feminino, mas considero importante e necessário enfrentarmos esses desafios. Sem discussão e reflexão, não há mudança, e essa pesquisa me mostrou que ela é mais do que necessária”.

 

SOBRE O AUTOR

Mestranda da ESPM, é pós-graduada em Jornalismo e graduada em Propaganda e Marketing. É empreendedora à frente da agência digital Wonder Comunicação Estratégica, professora de escrita e marketing digital, e proprietária do canal de entrevistas em vídeo Gente de São Paulo.